ANTECEDENTES
Em 2008, editou-se o Decreto no 53.254, de 21 de
julho de 2008, que inaugurou a certificação ocupacional como instrumento de
gestão de pessoas no âmbito da Administração Direta e Autárquica do Estado de
São Paulo para cargos em comissão, empregos e funções de confiança.
A certificação de pessoas não é uma novidade,
existem diversos programas e sistemas nas mais diferentes áreas profissionais..
Alguns exemplos de certificação de pessoas podem ser citados:
- o
PMP – Project Management Professional, certificação voltada a gestão de
projetos, por exemplo, é um conhecido sistema internacional de
certificação;
- existem
diversas experiências de certificação de pessoas na área de Tecnologia da
Informação;
- o setor financeiro brasileiro também adota a
certificação como parâmetro.
O que todos estes programas e sistemas têm em
comum? Todos eles privilegiam a experiência profissional, o conhecimento e as
habilidades obtidas com a prática, além de abordarem estudo de casos de sucesso
para construir conhecimentos que possam possibilitar o alcance da tão almejada
excelência na prestação de serviços.
Sob este panorama se pensou e estruturou um
processo de certificação buscando atender as necessidades específicas do Estado
de São Paulo.
CERTIFICAÇÃO: ABORDAGEM E PRINCÍPIOS
1 Abordagem
O sentido mais amplo de certificação é considerá-la
como sendo o ato de atestar ou aferir o conhecimento de uma pessoa sobre
determinado assunto. Este sentido incorpora os diplomas fornecidos pela educação
formal; os atestados de proficiência comumente emitidos por escolas de língua
estrangeira; certidões de conclusão de cursos extracurriculares de formação
específica; até mesmo qualquer atestado de realização satisfatória de um curso,
seja ele qual for.
Etimologicamente o verbo certificar tem dupla raíz
latina: certum = certo e facere = fazer. Objetivamente: ato ou efeito de fazer
certo. Esta concepção é muito interessante, pois incorpora na noção de
certificado a questão da prática. O fazer certo só pode ser aferido se focada a
ação, que pode ter êxito ou não. Diferente da educação formal, que se preocupa
em fornecer elementos e instrumental teórico que contribui para a formação,
normalmente descolado do mundo profissional.
A noção
de certificação adotada pelo Governo do Estado de São Paulo segue essa
premissa, ao considerá-la um processo metodológico de construção de saberes a
respeito de determinada função, implicando na definição de uma matriz de
competências, aplicação de uma avaliação de competências e fomento do
desenvolvimento profissional.
Figura 1: Estrutura
Metodológica da Certificação Ocupacional.
Toda a construção é dirigida para atender a dois
fins: desenvolvimento profissional e a melhoria dos serviços. Este duplo
sustenta a tríade de protagonistas do processo de certificação, composta por:
1) servidor, representado pelo profissional que assume as responsabilidades da
função para a qual poderá ser certificado; 2) Administração, representada pela
Pasta/Autarquia da qual faz parte o cargo/função a ser certificado; e, por fim,
3) o cidadão, àquele para o qual são destinados os serviços prestados pelo
Estado.
Cada protagonista
tem uma função de relevância neste processo e podem vislumbrar as
possibilidades de maneiras diversas uns dos outros. Mas é exatamente esta
diversidade que compõe o elemento único e agregador que diferencia o método do
processo de certificação ocupacional, ora proposto, de uma mera avaliação
profissional para atestar o acumulo de conteúdos de um indivíduo.
Passemos a tratar um pouco de cada um dos
protagonistas envolvidos no processo.
Servidor
como protagonista
O desenvolvimento profissional é a mola propulsora
do processo de certificação. Os profissionais que atuam na função a ser
certificada são atores imprescindíveis que, de forma alguma, podem ser
descolados do processo. São pontos-chave na metodologia a ser adotada.
Estes
sujeitos são diretamente afetados por duas vias: input e output. Input, por ser este que fornecerá
elementos para a construção de uma matriz de competências, do qual falaremos
mais detidamente à frente;
output, por ser este que passará pela avaliação.
A
participação ativa dos servidores, ocupantes do cargo/função a ser
certificado,em todo o processo é primordial para o sucesso da certificação.
Quem mais além deles poderá apresentar, com propriedade, um descritivo claro e
real das atividades desenvolvidas; das demandas existentes; dos processos de
trabalho; da cultura organizacional existente; entre outras informações
relevantes?
A importância deste personagem é clara, mas quais os ganhos que o
beneficiarão?
Pretende-se
que com a certificação o profissional tenha reconhecidas as suas habilidades
adquiridas, na maior parte das vezes, através de sua trajetória de vida, das
suas experiências na vida profissional, na busca, muitas vezes solitária, pelo
desenvolvimento pessoal através de cursos, estudos, entre outras atividades que
permitem o seu desenvolvimento. Além do mais, o fato do servidor contribuir na
construção da matriz de competências ajuda-o a entender melhor o seu trabalho e
lançar um olhar mais sistêmico sobre ele, que às vezes, passam por nós sem
sabermos muito bem qual o destino e o sentido.
Com a
matriz estabelecida, a partir do mapeamento de processo, é possível obter-se
esta visão sistêmica. Isto trás mais transparência à função, no sentido de
fornecer mais clareza ao que se espera do profissional, quais as suas
responsabilidades, qual o impacto de suas decisões, além de alinhar a missão da
organização com as competências dos profissionais. Enfim, os rumos a serem
tomados e as orientações das instituições passam estar publicamente definidas,
de modo claro e assimilável para o servidor.
Administração
como protagonista
A
Administração como protagonista encontra-se na intersecção entre o servidor e o
cidadão. É ela que deve fomentar o desenvolvimento profissional para, no final
da série, obter-se um resultado positivo na qualidade dos serviços prestados.
Assim,
entende-se que há uma ligação indissociável entre o desenvolvimento
profissional e a obtenção da melhoria na qualidade dos serviços prestados. Não
é possível alcançar um sem o outro. Idalberto Chiavenato descreve esta situação
quando coloca a seguinte questão: a qualidade dos serviços prestados depende
dos funcionários.
Satisfação
tanto dos funcionários como dos clientes. As empresas de serviços excelentes
acreditam que suas relações com os funcionários se refletem diretamente nas
relações com os consumidores. Elas criam um ambiente de apoio aos funcionários
que são recompensados pelo bom desempenho dos serviços. Regularmente, auditam a
satisfação dos funcionários em relação as suas tarefas. O Citibank havia
estabelecido uma meta de satisfação dos consumidores em torno de 90% e dos
funcionários em 70%. Mas equiparou os índices quando percebeu que era
impossível obter 90% de satisfação dos clientes se 30% dos funcionários estavam
insatisfeitos. (...)
Apesar de o autor relatar um caso em uma
instituição privada, as questões por ele apresentadas são adaptáveis à
realidade do setor público. Como muito bem expôs neste breve relato, o
desenvolvimento profissional é intrínseco à melhoria dos serviços, chegando ao
extremo da série, a satisfação do cidadão. A orientação ao cidadão, no caso do
Governo do Estado de São Paulo, é atender também o servidor.
Situada a
Administração no processo, passa a ser importante aludir aos ganhos que ela
pode obter.
Tudo o
que foi dito quando se abordou o servidor como protagonista, é válido para
Administração. Ela só tem a ganhar quando seus próprios rumos e objetivos são
tratados com mais transparência e clareza – como diz o poema de Edson Marques, “a
direção é mais importante que a velocidade”.
Quando se traça uma matriz de competências, abre-se
a possibilidade de redução dos impactos com as alterações de pessoal ao serem
assumidas diferentes funções. Sabe-se que um dos grandes problemas na
recolocação de pessoal é o alto custo da formação dos novos profissionais.
Quanto tempo pode necessitar um novo profissional para conhecer e se adaptar ao
seu novo trabalho? Com a certificação, o impacto da transição que poderia vir a
ser sofrido é minimizado, são de domínio público a realidade, as
responsabilidades e os trabalhos que o profissional irá assumir. Só estará
certificado aquele que estiver em consonância com a matriz de competências
estabelecida, portanto, apto a assumir a função.
O fato de
existir uma matriz definida não implica necessariamente na diminuição do nível
de complexidade do trabalho, nem na queda da qualificação do pessoal. Esta é
uma preocupação presente em autores que tratam da questão.
No plano
organizacional, formalizar o conhecimento facilita sua disseminação (Nonaka,
1994) mas pode implicar diminuição do nível de complexidade da entrega
requerido aos indivíduos. De acordo com esse raciocínio, ao formalizar o
conhecimento, a organização passa a requerer indivíduos de menor qualificação,
que obedeçam a regras e realizem atividades em circunstâncias de maior
padronização, estruturação e rotina, em vez de indivíduos com mais experiência
e conhecimento, capazes de trabalhar com maior autonomia.
Esta questão deve permear as reflexões sobre
qualquer processo de certificação ocupacional. Contudo, este problema é mais
notado quando a matriz é voltada a árvore de atividades, com um minucioso detalhamento
de atividades, que tolhe a autonomia do profissional e cria um nivelamento
negativo, por não permitir que o profissional agregue valor
à ação colocando um pouco de si no trabalho realizado. É preciso que fique
claro, uma matriz de competências é algo diverso de um job description ou de uma lista de atribuições manualizadas. Neste
sentido que a avaliação da certificação não foca conteúdo, mas conhecimento.
Conhecimento pressupõe experiência, capacidades atuais e virtuais. Conhecimento,
diferentemente de conteúdo, obriga a mobilização de conhecimentos múltiplos,
não trabalha por padrão, pois não é dado.
Outro
ponto forte de uma certificação é a formação de Bancos de Certificados, que
geram a possibilidade de se conhecer de maneira mais ampla os profissionais
certificados, bem como aqueles disponíveis para a assunção de cargos/funções
disponíveis. Isto dá subsídios à tomada de decisões e abre a possibilidade de
uma administração de pessoas com inteligência.
A
Certificação ocupacional é focada, primordialmente, em cargos em comissão,
empregos e funções de confiança, denominados de livre provimento e exoneração,
e garante-se que as nomeações se achem respaldadas em critérios técnicos e
objetivos. Tudo isto propicia a
profissionalização do quadro de pessoal do Estado.
Cidadão
como protagonista
O cidadão
como protagonista é o ponto extremo da série Certificação Ocupacional, pois a
meta final do processo é ofertar uma melhora na qualidade dos serviços
prestados a todos. A série da Certificação Ocupacional é cíclica, múltipla e
cumulativa. Os ganhos para um dos protagonistas também geram frutos para os
demais. Para tentar tornar mais claro, exemplifica-se.
A
certificação promove o desenvolvimento profissional, que por sua vez provoca a
melhoria dos serviços prestados pelo Estado, que faz chegar ao cidadão serviços
de melhor qualidade.
Outra
série.
A
certificação promove sistematização e publicidade das responsabilidades,
expectativas e atividades desenvolvidas pelos servidores, que passam a ter
maior clareza de sua função, proporcionando à Administração clareza na nomeação
e garantindo ao cidadão que o profissional que ocupa tal função corresponde
tecnicamente as suas exigências.
Como é
possível se verificar, a certificação é um processo que gera ganhos múltiplos
para os diversos atores envolvidos.
2
Princípios
Definida
a abordagem e a orientação que deveria ser tomada para a construção do projeto
de certificação de servidores, passou-se a criar os critérios, regras e
princípios norteadores do projeto, que serão expostos de maneira pontual a
seguir.
2.1.
Organismo certificador externo
Entende-se
por organismo certificador aquele que prepara e aplica a avaliação de
competências, para depois, conforme o resultado apresentado, emitir o
respectivo certificado, atestando que o profissional corresponde a um
determinado perfil. Uma prática corrente em certificações é ser ela realizada
por organismo externo, com o objetivo de garantia da confiabilidade no
certificado. Esta separação afiança certa autonomia ao processo.
2.2 Quem
certifica não capacita
Uma das
premissas básicas é a de que quem certifica não capacita. A justificativa é
muito próxima à utilizada na definição do por que um organismo externo deve
realizar a certificação. Apesar de alguns autores considerarem possível o
centro avaliador ser também o responsável pela formação todos ressaltam a
importância de se manter completa separação entre estas duas funções. Para o Estado de São Paulo, optou-se
pelo isolamento destas duas atividades, buscando-se minimizar possíveis vícios
ou interesses envolvidos. Dessa forma, procura-se garantir mais autonomia à formação
continuada dos servidores.
2.3 A
Certificação dirigida a cargos de comissão, empregos e funções de confiança
Os cargos
em comissão, empregos e funções de confiança são sempre vistos pelos cidadãos
com certa desconfiança. Questiona-se sempre o critério utilizado para a
nomeação de determinado profissional, que não passou pelo crivo de um concurso
público. Preocupação totalmente legítima, mas que a certificação procura
minimizar.
Os cargos
em comissão, empregos e funções de confiança são destinados, em regra, a um
corpo de profissionais que têm como objetivo as missões estratégicas e o plano
de governo. Isto não impede que se cobre dos mesmos a comprovação de capacidade
técnica para as atividades a serem desempenhadas.
Neste
sentido, opta-se por dar início no processo de certificação ocupacional,
primeiramente, com os chamados cargos e funções de livre provimento.
2.4
Certificação compulsória para os atuais ocupantes dos cargos
Os
agentes deste processo são tanto os atuais servidores quanto aqueles que têm
pretensão em atuar em áreas específicas da administração pública estadual, que
devem estar habilitados para prover cargos em comissão, empregos ou funções de
confiança, independentemente das exigências previstas em lei. A inclusão de um
cargo em comissão, função ou emprego de confiança no referido processo é
condicionado às demandas advindas dos órgãos da Administração direta e
autárquica interessados em certificá-los. Havendo o interesse, o dirigente da
autarquia ou o titular da Pasta deve manifestar seu intento à Secretaria de
Gestão Pública.
Após esta
inclusão, para o provimento de cargo em comissão e preenchimento de função ou
emprego de confiança, além dos requisitos previstos em lei, será exigida a sua
certificação específica.
Se a
ocupação de cargo/função fica condicionada a certificação, o que fazer com os
atuais ocupantes do cargo? Certificá-los, dando prioridade para estes
profissionais.
Tem-se que partir da premissa que todos que lá estão têm capacidade técnica
para tanto, afinal de contas foram indicados para lá estarem, seria contrasenso
pensar diferente. Contudo, isto não pode eximi-los da necessidade de serem
certificados. Assim sendo, os atuais ocupantes dos cargos/funções participam
compulsoriamente do processo. Obtendo êxito, são certificados. Se o contrário
ocorrer, há a possibilidade de serem encaminhados para uma capacitação, com o
objetivo de serem trabalhados nos déficits apresentados durante a avaliação.
Após a capacitação deverão novamente tentar obter o certificado, para permitir
a permanência no cargo, sendo certificado sem prejuízo qualquer em razão da não
certificação anterior. Caso não consiga mais uma vez obter o certificado, não
poderá permanecer no cargo. Esta regra procura manter a devida coerência do
processo: se o servidor ainda não está apto, ele não poderá exercer suas
atividades, mas poderá continuar a tentar se certificar.
2.5
Funções do Certificado
As
competências se diversificam em decorrência de mudanças culturais pelas quais
toda sociedade atravessa. Nos tempos atuais, estas mudanças são acentuadas pelo
uso de novas tecnologias em constante renovação, por inovações nas técnicas de
gestão e por alterações nos padrões de qualidade de produtos e serviços. Isto
tudo afeta também a percepção daquele para o qual foram destinados os serviços
e produtos, que passa a cobrar cada vez mais por melhorias na qualidade.
E o que é
preciso cobrar para garantir o atendimento da demanda por melhoria na qualidade
dos serviços prestados? Uma formação direcionada para questões práticas e para
aplicação profissional. Isto, é lógico, não invalida a educação formal, mas
complementa e direciona a formação individual para a aplicação diária.
Sob esta
perspectiva, “o certificado tem um alto significado para sua aplicação
profissional. Não indica que conteúdos acadêmicos ou do conhecimento foram
avaliados; refere-se a competências profissionais incluídas em um padrão ou
norma e conhecidas”.
Para
garantir esta atribuição do certificado, ele necessita de dinâmica, ter prazo
de validade, a fim de incentivar o contínuo aperfeiçoamento do profissional.
Após este prazo, o profissional deverá se submeter a novo processo para ser
novamente certificado. O certificado não dá garantia de permanência, para os
atuais ocupantes, nem de nomeação, para os candidatos.
É
importante não perder de vista que o certificado é para uso pessoal. Em momento
algum é feita a publicação daqueles que foram certificados ou que não
conseguiram alcançar o certificado. A confidencialidade dos resultados é
importante para se evitar constrangimentos desnecessários.
2.6
Macroetapas do processo
2.6.1 Matriz
de competências
A base
metodológica utilizada para o levantamento da matriz de competências tem como
referencial teórico a Gestão por Competências, tendo sido tal modelo adaptado
para a realidade específica do Estado de São Paulo e para as características da
administração pública.
A Gestão
por Competências é um modelo de gestão baseado no alinhamento da atuação dos
profissionais com o direcionamento estratégico do órgão no qual atuam. Assim, o
mapeamento e o desenvolvimento das competências necessárias facilitam o alcance
dos objetivos organizacionais a serem atingidos e orientam a atuação dos
ocupantes dos diversos casos. Para que o processo seja conduzido de forma a
permitir o correto mapeamento de competências necessárias ao exercício das
funções dos cargos/funções envolvidas no processo, parte-se do mapeamento e
modelagem dos processos, os quais são realizados segundo a lógica sistêmica,
decompondo a realidade institucional em vários níveis de detalhamento, desde a
visão mais ampla até a identificação de processos de trabalho e atividades
executadas.
Para
definir o mapeamento dos processos, utiliza-se de oficinas de trabalho
nas quais se agrupam diversos perfis, envolvendo não apenas ocupantes do
cargo/função em evidência, mas também pessoas que com eles interagem, fornecendo
insumos ou recebendo produtos dessas atividades. Assim, vislumbrando os
processos associados e suas interações, procura-se reduzir o risco de eventuais
distorções de focos devido a efeitos personalistas nas entrevistas individuais.
O princípio regente entende que o cargo/função não é dissociado de outras
atividades, mas está em constante interação com outros atores da estrutura
funcional interna ou externa da organização.
O fato de
partir-se do mapeamento e modelagem dos processos de trabalho permite um
diagnóstico do status quo do trabalho realizado pelos profissionais, o que é
fundamental em um processo de mapeamento de competências e de certificação. Em
seguida, é preciso analisar a missão, os objetivos estratégicos e as diretrizes
emanadas da Secretaria envolvida, a fim de que a matriz de competências para o
cargo/função esteja alinhada ao planejamento estratégico do órgão.
Analisa-se,
então, a legislação pertinente à área afeta ao cargo/função, levantando-se
todas as atribuições legais que lhe são pertinentes. Compara-se, então, o
resultado obtido com o mapeamento e a modelagem de processos de trabalho com o
planejamento estratégico do órgão e a legislação específica; identificam-se
lacunas de competências no atual exercício do cargo/função. O passo seguinte é
confirmar se tais lacunas existem de fato ou se por algum apenas deixaram de
ser mencionadas durante a oficina que dá origem ao mapeamento dos processos de
trabalho dos ocupantes do cargo/função. Para essa checagem, realiza-se entrevistas
com atores estratégicos, cuja indicação deve ser feita por representantes das
Pastas envolvidas. Nessas entrevistas, os atores são solicitados a apresentar
suas perspectivas sobre os seguintes temas: principais objetivos do
cargo/função; estrutura atual sob responsabilidade do cargo/função; pontos
fortes do cargo/função; pontos fracos do cargo/função; nível de mudanças e
incerteza no ambiente organizacional do cargo/função; visão de futuro do
cargo/função na opinião do entrevistado; e expectativas com relação ao projeto.
Procura-se, também, entrevistar os Dirigentes e outros executivos da Pasta,
para confirmar o perfil desejado para os futuros ocupantes do cargo/função.
Caso a
realização dessa etapa confirme a existência de lacunas presentes no diagnóstico
feito pelo mapeamento de processos, as competências identificadas como
“inexistentes no momento atual, mas necessárias ao bom desempenho do
cargo/função” são listadas para inclusão em um processo de desenvolvimento de
competências.
O
resultado desta empreitada gera o conteúdo programático que fundamenta a
elaboração das questões a serem consideradas na avaliação. É importante
salientar que o enfoque dado às questões que nascem da matriz de competências é
puramente prático. Em termos metodológicos: não se questiona o que fazer, mas
como fazer.
2.6.2
Avaliação e certificação de competências
A matriz
de competências é o referencial para se aferir as competências individuais dos
profissionais. A avaliação verifica se o profissional atende aos requisitos,
responsabilidades e habilidades estipuladas, e deve se dar em dois âmbitos:
conhecimentos/habilidades em ação e comportamental (inventário comportamental).
Importante salientar que só há sentido na certificação se a mesma tiver o
enfoque totalmente prático, não é premente se avaliar os conteúdos teóricos e
abstratos acumulados do profissional. Dessa maneira, não interessa verificar o
acúmulo de conteúdos. A certificação é essencialmente pragmática. Como o
enfoque está na ocupação exercida pelo profissional, o importante é verificar a
aplicabilidade das ações, o saber fazer.
Tecnicamente
ela deve, ao mesmo tempo que avalia, “mapear” o nível de
conhecimento/habilidade de um profissional. Isto é possível se ao invés de
pontuar apenas acertos e erros, estes sejam observados segundo níveis de
dificuldade, procurando uma regularidade de acerto em determinado nível,
estipulando-se por fim, qual o nível de conhecimento/habilidade do
profissional. As questões devem ser objetivas e adequadas às necessidades do cargo.
A
avaliação não pode ter um caráter classificatório, deve simplesmente ofertar
dois status: certificado ou ainda não certificado. Ela traça, objetivamente, se
um profissional tem as condições mínimas para assumir determinado cargo/função;
verifica se o mesmo corresponde aos quesitos técnicos, com suas respectivas
responsabilidades e atividades.
Banco de
questões
O Banco
de Questões é um banco de dados que armazena um número “x” de questões que
deverão ser utilizadas na avaliação. A variável “x” é determinada em função da
quantidade de pessoas que serão submetidas à avaliação, para atender aos
princípios estatísticos que garantam a eficiência do processo, minimizando a
ocorrência de provas iguais.
A
formulação das questões é feita a partir de conteúdo programático que compõe os
padrões de competências. As questões são feitas por níveis de dificuldade,
sempre ponderadas, para garantir que as de mesmo nível tenham iguais
probabilidades de acertos. “As questões devem corresponder aos critérios de
desempenho especificados em cada um dos elementos das normas de competências”
Aplicação
da avaliação
A
avaliação é feita em regime presencial, em um Centro de Testes, utilizando-se
do ambiente web. Os Centros de Testes são ambientes no qual o profissional,
candidato à certificação se apresenta para a realização da prova. O ambiente
dos centros é controlado por um coordenador, que auxilia o candidato no que for
preciso, além de verificar se o candidato que está realizando a prova trata-se
da pessoa inscrita.
O fato da
avaliação ser em ambiente web facilita que os Centros de Teste possam ser
facilmente montados conforme a demanda. Basta uma sala, um computador e acesso
à internet. Esta mobilidade também garante maior flexibilidade na agenda de
realização de provas, na qual o candidato pode adequar a avaliação a sua rotina
pessoal. O profissional que for participar da certificação verifica qual o
Centro de Testes mais próximo do seu trabalho, ou domicílio, e agenda a
avaliação no período que lhe for mais propício.
A avaliação
adota a Teoria de Resposta ao Item – TRI como base para avaliação dos
resultados do exame. A TRI avalia o resultado sob a perspectiva de 3
indicadores distintos: 1. Índice de dificuldade (grau de dificuldade da
resposta); 2. Índice de discriminação (a capacidade de uma pergunta diferenciar
as pessoas e seus conhecimentos); 3. Probabilidade de acerto ao acaso (a
probabilidade de uma pergunta ser acertada por acaso, sem o conhecimento
efetivo).
O diferencial da TRI é possibilitar que mesmo
provas diferentes tenham o mesmo grau de dificuldade e discriminação dos
servidores avaliados. O uso da TRI que possibilita provas aleatórias
mantendo-se o mesmo nível de avaliação.
A TRI também promove uma mudança de foco sobre a
avaliação dos resultados, pois privilegia não apenas o certo e errado, mas sim
a qualidade da informação gerada pelo exame. Com o uso da TRI a avaliação não
afere o conteúdo, mas sim o nível de conhecimento do profissional, avalia,
ainda, o desempenho do servidor, frente ao público (universo de servidores que
optaram por realizar o exame na mesma área de competências intermediárias, que
têm o mesmo nível de cargo). Esse diferencial é de elevada importância. Permite
que uma questão seja eliminada por não ser relevante para o público, por mais
que esteja correta, ou por gerar muitos acertos ao acaso, sem conhecimento do
assunto por parte do servidor. Estas exclusões se fazem necessárias, pois se
privilegia, aqui, uma informação que realmente indique capacidades dos
servidores, não uma mera pontuação em uma avaliação.
Inventário
comportamental
Além da
avaliação dos conhecimentos e habilidades, sempre focado na ação prática, a
certificação deve retratar um perfil atitudinal, que possibilite a avaliação do
grau de conformidade do profissional às competências interpessoais mapeadas e
esperadas para o exercício do cargo.
A
aplicação do inventário comportamental é feita presencialmente nos Centros de
Testes, nos moldes da aplicação da avaliação de conhecimentos e habilidades. O
inventário possui quarenta itens, cujo resultado define o perfil de cada
candidato, ao fornecer subsídios para a avaliação de sua perspectiva
comportamental.
O inventário identifica as escolhas de preferências
comportamentais em 4 dimensões, abaixo especificadas:
a) Estilo interpessoal: indica o grau de
introversão/extroversão, apontando a fonte em que a pessoa obtém a energia
motivacional (no seu mundo interior ou no seu mundo exterior);
b) Estratégia atitudinal: denota como a pessoa
se orienta, de maneira estruturada/organizada à maneira flexível/aberta;
c) Estilo de aprendizagem: mostra como a pessoa
capta e assimila as informações, de maneira prática/concreta à maneira
teórica/abstrata.
d) Estratégia de tomada de decisão: situa como
a pessoa avalia e toma decisões, de maneira analítica/racional à maneira
subjetiva/emocional.
Este inventário é fundamentado no MBTI –
Myers-Briggs Type Indicator, formulada por Katharine Briggs e Isabel Briggs-Myers.
Atualmente este instrumento é muito utilizado em processos de seleção de
pessoal em empresas e universidades, devido à sua facilidade, simplicidade e
capacidade de aplicação prática.
2.6.3
Desenvolvimento de competências
O
desenvolvimento de competências, propiciado pelo processo de certificação,
prevê que seja encaminhado à qualificação o servidor ocupante do cargo,
oferecendo-se a possibilidade deste ser qualificado, como já descrito. Como se
parte do pressuposto que mesmo os servidores certificados podem ter pontos nos
quais tem mais dificuldades, e que os mesmos podem querer aperfeiçoar seus
conhecimentos em determinadas áreas, a estes, embora devidamente certificados,
também será sugerido cursos de qualificação, conforme a necessidade apresentada
durante o processo de aferição dos conhecimentos e habilidades e do inventário
comportamental.
Desta
forma, primeiro difundimos a capacitação dirigida aos GAP’s
individuais e organizacionais. Evita-se, ainda, a estigmatização dos servidores
que forem direcionados à capacitação, como aqueles ainda não certificados;
havendo a mescla de profissionais, certificados e não certificados não se criam
constrangimentos e é mantido o sigilo da condição. Para todos os efeitos, os
servidores ali presentes, antes de tudo, são profissionais interessados em
desenvolver suas competências.
2.6.4
Banco de certificados
Banco de
Certificados é um instrumento que viabiliza a aplicação do processo de
certificação. A certificação, como já dito anteriormente, é destinada não só
aos atuais ocupantes do cargo/ função envolvido, mas também é aberta a um
público externo, respeitadas as exigências legais para sua ocupação.
O banco
de certificados fornece uma base de pesquisa para quando for necessária uma
nomeação, o dirigente da Pasta solicite currículos conforme o perfil e formação
desejados.
Sérgio Sgobbi, diretor de Educação e Recursos Humanos da Brasscom
(Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação),
nos dias atuais a certificação vale mais do que os diplomas universitários para
o setor, na hora da contratação de profissionais. “Isso acontece porque as
empresas são avaliadas por padrões internacionais, que exigem um certo número
de profissionais certificados (...). Assim, ter certificações pode ser um
diferencial para entrar no mercado.” Olhar Digital. Trabalho em TI:
certificação vale mais do que faculdade para entrar no mercado. Disponível em:http://olhardigital.uol.com.br/negocios/digital_news/noticias/trabalho_em_ti_certificacao_vale_mais_do_que_faculdade_para_entrar_no_mercado.
Citamos alguns dos principais certificados do sertor financeiro: CPA–10
- CERTIFICAÇÃO PROFISSIONAL ANBIMA – SÉRIE 10; CPA–20 - CERTIFICAÇÃO
PROFISSIONAL ANBIMA – SÉRIE 20; CEA - Certificação de Especialista em
Investimentos Anbima (CEA); CGA - Certificação de Gestores ANBIMA - CGA; CFP -
Certificação de Planejador Financeiro (CFP®).
ALEXIM, J. C.; FREIRE, L. (Org.). Certificação de competências
profissionais. Análise qualitativa do trabalho, avaliação e certificação de
competências – Referências Metodológicas. Brasília: OIT, 2002, p. 271.
A noção utilizada aqui de input e
output não tem qualquer relação com a concepção trabalhada por FLEURY e
FERNANDES (2007). Segundo estes autores, “Parry (1996) chama a atenção para
duas concepções atribuídas a competências: como inputs ou outputs. Para o autor,
nos Estados Unidaos, competências são encaradas predominantemente como inputs:
conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que afetam o desempenho do
indivíduo; na Europa, competências são vistas como outputs: empregados
demonstram competências a partir do momento em que atingem ou superam
resultados esperados em seu trabalho. (...)” Este texto não pretende entrar em
choque com os conceitos expressos no texto citado. A utilização dos termos
input-output é meramente técnica.
“Os valores partilhados pelos membros
de uma organização, sustentam modelos, práticas de gestão e comportamentos
considerados legítimos pelo grupo”. (FISCHER; FLEURY, 2008; p. 122).
FLEURY, M. T.; FERNANDES, B. H. R. Modelos de gestão por competência:
evolução e teste de um sistema”. Revista Análise, v. 18, n. 02. Porto Alegre:
PUCRS, 2007, p. 107. Disponível em:
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/face/article/view/2676/2041>.
Acesso em: jan. 2009.
ALEXIM, J. C.; FREIRE, L. (Org.). Certificação de competências
profissionais. Análise qualitativa do trabalho, avaliação e certificação de
competências – Referências Metodológicas. Brasília: OIT, 2002, p. 272.
Diferença entre as competências
requeridas para uma função e as competências diagnosticadas em um profissional.