Congresso 2015

Congresso 2015

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Mitos da Gestão Pública




Hélio Janny Teixeira
Doutor e Livre-docente em Administração pela FEA-USP e professor da mesma instituição.

Quem é melhor: o público ou o privado? As empresas ou o governo? Os políticos ou os cidadãos comuns? A maioria tem a resposta na ponta da língua: nada pior do que o público, o governo e os políticos. As perguntas, apesar de infantis e maniqueístas, geram respostas com conseqüências sérias e portanto deixam de ser coisa de criança. Preconceitos e concepções errôneas podem levar a decisões equivocadas e a ações desastrosas. Se o Estado é um mal, ele deve ser reduzido, deixando as soluções para o bem, ou seja, para as empresas e para o mercado. Se os políticos não funcionam, será melhor acabar com a democracia? Mas por que estas crenças são tão fortes em nosso país?

Criticar ou pensar nos erros do governo e dos políticos, principalmente pela manhã, após leitura do jornal ou escuta da rádio preferida, provoca uma sensação de alívio e de dever cumprido, ao mesmo tempo que expia as próprias culpas. A satisfação é garantida e não há risco de encontrar pessoas com argumentos contrários, ou seja, que defendam o Estado. Mas isto é correto? As críticas são procedentes? Por um lado sim. O Estado representa uma grande síntese com volume de operações gigantesco, e obviamente apresenta grandes dificuldades e desperdícios no seu funcionamento. Trata-se da instância máxima e mais importante da articulação da sociedade e, conseqüentemente, é e sempre será o principal responsável pelas suas grandes dificuldades. Ainda mais após a Constituição de 1988, que legitimou o crescimento da demanda por serviços públicos. Embora louvável, a evolução dos direitos sociais, e conseqüentemente das legítimas demandas da população, não deixa de causar apreensão quando confrontada com a capacidade de resposta do Estado tanto do ponto de vista qualitativo quanto quantitativo. Educação, saúde e segurança são exemplos cruciais de serviços insuficientes e constantemente criticados pela população.

Mas vejamos o outro lado da questão numa análise menos apaixonada. Ineficiência não é exclusividade do setor público, nem a eficiência só está presente no setor privado. E mais. O lucro muitas vezes não é uma boa medida de eficiência. Uma empresa eficiente do ponto de vista produtivo (relação entre insumos utilizados e produto gerado) pode ser deficitária em função dos preços a que está submetida sua produção (por exemplo, para combater inflação). Em geral, compara-se o que há de pior no público com o que há de excelência na área privada.

Outro mito que deve ser desfeito é o que diz que a sociedade é bem melhor do que o Estado e seus governantes. O bom cidadão seria um injustiçado diante do mau governo. A verdade não é bem essa. Existe dificuldade histórica da sociedade em organizar-se a fim de representar seus interesses desde condomínios, times de futebol etc. até os partidos políticos. É óbvio que temos os melhores jogadores de futebol do mundo. Mas o que falar dos clubes (que além de falidos não pagam seus encargos sociais), das federações, calendários etc? O individualismo e o utilitarismo imediato suplantam a ética da solidariedade e a preocupação com o bem comum. No quadro de uma sociedade marcadamente desigual, a cultura brasileira nunca teve entre os seus traços fortes a idéia de igualdade de direitos para todos, nem a valorização do interesse coletivo. Por decorrência e também para mascarar as próprias culpas, as pessoas tratam indevidamente o público como algo exclusivo do Estado. Se os problemas não são resolvidos, cresce a responsabilidade alheia. Trata-se de mais uma ilusão. Nunca teremos boa saúde e educação para todos sem profundo envolvimento dos indivíduos, das famílias, dos empresários e seus impostos, e da sociedade em geral.

A terceira grande ilusão é representada pelo entendimento de que o Estado está diminuindo e deve diminuir ainda mais. Muito embora a afirmação pareça interessante, ela não corresponde aos fatos. Todas as estatísticas recentes mostram, salvo exceções não-relevantes, que o Estado cresceu em todos os países, o que pode ser verificado por meio de medições como participação das despesas públicas em relação ao PIB. (Ver World Development Report – The State in a Changing World – 1997).

As ilusões e os mitos mencionados, embora com algum conteúdo verdadeiro, uma vez generalizados, não só obscurecem o entendimento dos problemas como levam a soluções equivocadas. Concluímos com três idéias que resumem o ponto de vista que procuramos apresentar neste artigo:
  • o Estado e o governo não são piores e mais ineficientes do que o mundo privado e a sociedade em geral. Cada instância de organização societária - Estado, mercado e sociedade - tem suas mazelas, limitações e potencial contributivo que deve ser entendido e articulado;
  • não há como fortalecer o Estado, para que enfrente as pressões como globalização e desemprego, com menos impostos e despesas; e, por último,
  • é fundamental ter como meta o fortalecimento do interesse público como valor compartilhado pela sociedade e não apenas como algo localizado institucionalmente no Estado.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Videoconferência IAMSPE "Saúde do Homem - Câncer de Próstata"





Para visualizar a Vídeoconferência basta acessar o seguinte endereço: http://media.escolasdegoverno.sp.gov.br/iamspe

As perguntas poderão ser enviadas pelo e-mail fundap.vc@fundap.sp.gov.br ,  e serão respondidas ao vivo. As videoconferências anteriores do IAMSPE poderão ser acessadas através do endereço:
http://www.escolasdegoverno.sp.gov.br   Entrar no ícone videoconferência  na parte central superior da tela. Do lado direito no ícone buscar   colocar a palavra   IAMSPE .

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Eu odeio meu chefe!




por Sidnei Oliveira*


Pronto, processo terminado! Todo o meu trabalho está feito e conferido, agora é só passar tudo para o chefe e ir embora. Não é uma saída para a casa, pois ainda é necessário ir para faculdade, mas o simples fato de terminar mais uma jornada, já dá um sentimento bom. Esse momento de satisfação, contudo, é quebrado quando o meu chefe me chama de volta e devolve o processo dizendo: “Está com erro, arrume!”.

Quase que instintivamente, uma pergunta salta de mim, em um misto de incredulidade e indignação: “Onde está o erro?” 

Essa é a hora que, com uma crueldade quase sádica, meu chefe responde: “Você é quem errou, descubra o erro e arrume...

É inacreditável a capacidade do meu chefe não se comprometer com os resultados. Ele não percebe que ao “esconder o erro”, fazendo joguinhos de adivinhação, apenas irá atrasar todo o processo? O que custa devolver o trabalho, apontando diretamente o problema? Certamente é muito mais simples e rápido para solucionar o erro. Fica claro que esse chefe precisa garantir sua autoridade e se aproveita de um erro simples para mostrar quem manda. Ele é antiquado e autoritário. Teve chefes ruins na vida e agora desconta em sua equipe. Ele não percebe que são novos tempos. Agora o chefe deve ser mais participativo, não pode ser autoritário. O que importa são os resultados e não esse jogo de poder.

Cada vez que isso acontece, eu odeio meu chefe!

Enquanto isso, na cabeça do chefe...

Novamente ele me entrega o trabalho sem perceber esse erro simples. Mesmo depois de ter explicado, ele ainda não consegue perceber. Creio que preciso usar uma nova estratégia. Desta vez, não irei mostrar o erro. Devolverei sem maiores explicações e exigirei dele, com mais rigor, a solução do problema, pois, na verdade, foi ele quem cometeu o erro. 

Está na hora dele mesmo descobrir os próprios erros e saber lidar com isso. Ele não pode ficar dependente de mim. Afinal, ele tem talentos e precisa descobrir isso.

Espero que ele não fique com ódio... 

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* Consultor, Autor e Palestrante, expert em Conflitos de Gerações, Geração Y e Z, desenvolvimento de Jovens Talentos e Redes Sociais, tendo desenvolvido soluções em programas educacionais e comportamentais para mais de 35 mil profissionais em empresas como Vale do Rio DocePetrobrasGerdau,Santander, TAM, Unimed entre outras.

Formado em Marketing e Administração de Empresas, autor de vários livros sobre Liderança e Administração. É  sócio-fundador da Kantu Educação Executiva, Vice-presidente do Instituto Atlantis de preservação ambiental  e membro do conselho de administração da Creditem Cartões de Crédito e do Fórum de Líderes Empresariais.

É também colunista com artigos publicados nos portais Exame.comCatho OnlineClick Carreira e Café Brasil.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Mentor você conhece de olhos fechados!


por Sidnei Oliveira*


Sua trajetória é certamente cheia de momentos bons e ruins, durante os quais você vive situações diversas e conhece pessoas dos mais variados tipos. Esta é a essência de nossa vida: caminhar pelos seus ciclos em um fluxo constante de momentos, fazendo escolhas e colecionando experiências.

Algo que muitas vezes passa despercebido são aquelas pessoas que cruzam nossa trajetória com o objetivo de “tocar-nos” e transformar, completamente, o caminho de decisões que inicialmente havíamos considerado absoluto e correto.

Quase sempre demoramos para aceitar a presença provocativa e os “toques” afiados dessas pessoas, mas, depois de um tempo, aprendemos a respeitá-los e a esperar essa interferência em nossas vidas, pois consideramos essas pessoas como nossas principais referências. Isso acontece quando elegemos nossos MENTORES.

Essa relação é pautada por um profundo relacionamento. São conselhos, propostas do melhor caminho a seguir, a melhor trajetória. O Mentor não manda, sugere. Ele orienta, guia, mostra o caminho e as opções possíveis, deixando o mentorado fazer a escolha que julgar ser a melhor opção. Entretanto, esse não é o único processo que está envolvido na relação de Mentoria.

Apesar de termos um papel fundamental na eleição de nossos mentores, cabe a ele – O MENTOR – a decisão final de considerar o nosso potencial e apostar em nossa trajetória. O mentor tem a perícia de descobrir talentos, para que este seja seu aprendiz e com ele cuidar com extrema profundidade dos crescimentos pessoal e profissional.

Ter um mentor é um privilégio, pois é resultado de uma excelente conquista pessoal. Agora, ter vários mentores é uma enorme responsabilidade, pois exige que você também considere a missão de transformar-se em mentor algum dia.

Feche os olhos e pense em uma pessoa que de alguma forma tocou sua vida e fez você mudar de direção.

Achou um? Achou vários? Que ótimo! Contudo, deixo uma pergunta:


Será que algum dia, ao fechar os olhos, alguém lembrará de você? 



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* Consultor, Autor e Palestrante, expert em Conflitos de Gerações, Geração Y e Z, desenvolvimento de Jovens Talentos e Redes Sociais, tendo desenvolvido soluções em programas educacionais e comportamentais para mais de 35 mil profissionais em empresas como Vale do Rio DocePetrobrasGerdau,Santander, TAM, Unimed entre outras.

Formado em Marketing e Administração de Empresas, autor de vários livros sobre Liderança e Administração. É  sócio-fundador da Kantu Educação Executiva, Vice-presidente do Instituto Atlantis de preservação ambiental  e membro do conselho de administração da Creditem Cartões de Crédito e do Fórum de Líderes Empresariais.

É também colunista com artigos publicados nos portais Exame.comCatho OnlineClick Carreira e Café Brasil.


http://www.sidneioliveira.com.br/samba/

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Um modelo ultrapassado



por Hamilton Coimbra Carvalho*


Em diagnóstico publicado em 2012, o governo britânico constatou que seu serviço público é focado em meios e não em resultados e que sua cultura tende a ser burocrática, hierárquica e resistente à mudança. Na administração pública, prosseguia o relatório, há poucos incentivos para que os servidores busquem melhorias e inovações e aqueles que o fazem colocam sua carreira em risco. Assim, o caminho natural para os servidores é a acomodação ao status quo.

Em contatos esporádicos com funcionários de governos de outros países nos últimos anos percebo um diagnóstico similar: a burocracia que orienta o funcionamento dos governos asfixia a iniciativa, a inovação, a motivação, e por consequência, o desenvolvimento do capital humano nela empregado. O resultado disso é que a geração de valor para a sociedade tende a ficar, em diversos graus (dependendo do país e do órgão), aquém do seu potencial. Exceções existem e tipicamente estão inseridas em raras culturas que conseguem combinar a eficiência com o igualitarismo (países nórdicos vêm à cabeça - são países com alta qualidade de vida e que tem um alto escore na dimensão cultural que Geert Hofstede chama de "feminilidade" - basicamente, preocupação social com os outros). Voltando ao assunto, a reflexão que venho fazendo nos últimos anos me ajuda a fazer a seguinte proposição: 

O sistema burocrático tradicional, de inspiração weberiana e focada em cargos, linhas de comando e estruturas hierárquicas (no conceito tradicional, não importa quem são as pessoas que ocupem os cargos), é, por si só, prejudicial ao alcance pleno dos objetivos dos órgãos governamentais. 

Um contra-argumento importante que precisa ser considerado em face dessa proposição é o de que talvez esse sistema seja o menos imperfeito de todos os sistemas possíveis. Mas não vou tratar dele hoje.

Outra proposição que eu faço é a seguinte:

No Brasil (e em países latinos que tenham um perfil cultural similar) o sistema burocrático tende a ser mais disfuncional. 

Que perfil cultural é esse? Basicamente duas das dimensões de Hofstede vêm ao caso: intolerância à incerteza e distância do poder. Quando a primeira é baixa, a tendência é a produção em excesso de normas: como não se consegue conviver com a incerteza e a ambiguidade, tudo - absolutamente tudo - precisa ser regulado por normas estatais (exemplos banais: obrigar comerciantes a exibir o código de defesa do consumidor; a lei aprovada esta semana na cidade de São Paulo prevendo multa para proprietários de veículos que deixam o som no último volume). Com isso temos avalanches de normas que, muitas vezes, desaguam no descrédito e no não-cumprimento – gerando, por sua vez, a necessidade de novas normas. No caso da dimensão cultural "distância do poder" com alto escore (como no Brasil), relações hierárquicas são muito valorizadas e não podem ser quebradas: "manda quem pode, obedece quem tem juízo". 

Como consequência de um sistema de organização do governo (burocracia weberiana) que tende a levar a arquiteturas e culturas organizacionais rígidas, com efeitos negativos potencializados pela expansão irrefreada de normas (inclusive intraorganizacionais) e por relações de poder autoritárias, não é surpresa que tenhamos organizações públicas que: (1) geram baixo valor ao cidadão (exemplos gritantes: sistemas públicos de saúde e educação no Brasil), (2) tem fortíssimo "sistema imunológico" contra a mudança e a inovação e que (3) sejam fábricas de desmotivação em série. 

Além disso, a realidade com que qualquer organização se depara, interna e externamente, é uma realidade multifacetada, que exige do gestor uma preparação para superar a natural tendência humana a buscar e aceitar soluções fáceis e prontas (frequentemente ruins). Toda organização lida com diversos paradoxos. Deixando de lado a tentação de discorrer sobre alguns deles, ressalto que o enfrentamento desses paradoxos requer a superação de tendências individuais automáticas e incrustadas (como o dogmatismo). Esse é um perfil que se exige cada vez mais dos gestores e líderes: a aceitação e a gestão de situações ambíguas, que carregam frequentemente pontos de vista contraditórios. Enfrentar os paradoxos organizacionais envolve ainda o desenvolvimento de determinadas competências organizacionais, como a tolerância ao risco (há caminhos conhecidos para isso, como os comitês de risco para o desenvolvimento de inovações). Mas tanto as competências individuais quanto as organizacionais desejáveis tendem a ser sufocadas em uma cultura como a brasileira, com baixíssima tolerância à ambiguidade e relações de poder muito assimétricas. 

Eu não tenho solução pronta para superar esses problemas (e desconfio de quem proclame ter - estamos lidando tipicamente com um problema hipercomplexo - um "wicked problem", para usar um termo da moda). Eu acho que as soluções terão de ser construídas em conjunto com os profissionais das organizações públicas, a partir de determinadas premissas, e testadas sob uma abordagem de gerenciamento por descobertas (conceito de Gary Klein): introduzidas aos poucos, em um processo de contínua experimentação e aprendizagem, sem saber exatamente aonde se vai chegar, mas sabendo exatamente qual a direção (parece contraditório?).  

Dando a minha contribuição, acredito que o caminho é a flexibilização do modelo burocrático, buscando-se arquitetura organizacionais focadas na busca de resultados claros e organizadas em torno do eixo propósito-princípios-pessoas. Há limites claros, como os princípios do direito administrativo, mas eu acredito que é possível a existência de modelos de atuação que possibilitem, dentro desses limites, que os profissionais se dediquem de coração à busca dos objetivos da organização a que pertencem.  

Um dos requisitos essenciais dessa busca é a definição de boas métricas de impacto. Como saber, no serviço público, se a missão da organização tem sido cumprida? Frequentemente as métricas inexistem ou são ruins. Métricas de impacto tendem a ser imperfeitas e complexas (como medir a qualidade de um sistema educacional?), mas sua utilização é necessária para superar a armadilha das métricas de produto (focadas em atividades e meios). 

Outro requisito essencial é a superação de modelos mentais ultrapassados, algo que acarreta muito desconforto. Um desses modelos é o que considera os profissionais como “recursos” humanos, pressupondo uma massa homogênea que precisa ser comandada e controlada ao extremo. 

Para finalizar, deixo essa excelente indicação de leitura, que trata das mais modernas tendências de redesenho do trabalho, propondo alguns caminhos interessantes para qualquer organização, pública ou privada. Recomendo a todos.

http://cdn.dupress.com/wp-content/uploads/2013/06/DUP345_Workplace-Redesign_vFINAL-6.3.pdf

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* Hamilton Coimbra Carvalho, Mestre em Administração pela USP e Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

3 notas sobre o cotidiano das organizações




Eu não me lembro o que você fez há 10 meses: vieses e avaliação de desempenho

Um livro que indiquei em outro post (Decisive: How To Make Better Choices in Life and Work) apresenta soluções muito práticas para superar diversos vieses que atingem o cotidiano das organizações, frequentemente com consequências sérias.

Um outro livro que trata do mesmo tema (e que compila como poucos os vieses identificados por décadas de pesquisa na economia comportamental e na psicologia social), também com enfoque prático, é o livro dos professores de Administração Max Bazerman (Univ. Harvard) e Don Moore (Univ. Carnegie Mellon). Para quem tem interesse no tema, é leitura imprescindível: Judgment in Managerial Decision Making (2009). É utilizado no curso que o Bazerman dá em Harvard.

O livro de Bazerman e Moore trata, por exemplo, de um viés que tem consequências na avaliação de desempenho, realizado anualmente nas organizações. Como esse viés se manifesta? Com base em sua memória, gestores avaliam o desempenho de funcionários de forma naturalmente enviesada: exemplos mais vívidos de comportamentos dos funcionários (sejam positivos ou negativos) são mais facilmente lembrados e vão dar a impressão de que são muito mais numerosos do que os comportamentos comuns do dia-a-dia, que não são gravados na memória do gestor da mesma forma. Assim, os comportamentos mais facilmente recuperáveis da memória e que tendem a não ser representativos do desempenho do funcionário terão um peso claramente desproporcional em avaliações de desempenho. A proximidade temporal dos comportamentos também tem uma influência comprovadamente desproporcional: as evidências mostram que os gestores dão um peso muito maior aos eventos ocorridos nos últimos 3 meses do que nos 9 meses anteriores. Destaco: mesmo assim, a maioria esmagadora das empresas faz apenas avaliações anuais. Esse é mais um caso de gap entre o que a ciência sabe e o que as organizações aplicam.


“Muitos profissionais usam seu tempo ineficientemente porque a cultura organizacional focada em horas trabalhadas não os força a pensar rigorosamente sobre o que é realmente importante”

É o que diz Robert Pozen, de Harvard, nesse texto bem interessante, que vai ao encontro da discussão sobre como medir produtividade dos profissionais. O texto está no blog da Harvard Business Review: http://blogs.hbr.org/hbsfaculty/2012/06/stop-working-all-those-hours.html

A discussão sobre mensuração de produtividade e configuração do trabalho tem ocupado consultorias e o mundo acadêmico desde que o Yahoo! resolveu extinguir seu programa de home office. Há 2 semanas a consultoria Deloitte organizou um evento ao vivo para discutir o tema, reunindo diversos especialistas. Em resumo, a Deloitte concluiu que as organizações devem estar abertas para formas flexíveis de configuração de trabalho que atendam os interesses de todas as partes envolvidas, inclusive, evidentemente, delas mesmas. Um dos pontos que eu destaco das conclusões da consultoria é a necessidade de os gestores definirem claramente o que esperam de suas equipes em termos de geração de valor.


Acelerando a melhoria de desempenho no trabalho: Novas formas de organização do trabalho

A mesma Deloitte lançou também um trabalho fantástico, que propõe formas de reconfiguração do trabalho que propiciem inovação, agregação de valor e motivação aos profissionais, utilizando conceitos como o design thinking e baseando-se na necessidade de as organizações superarem o conceito de “silos”. Vale muito a pena ler:

http://cdn.dupress.com/wp-content/uploads/2013/06/DUP345_Workplace-Redesign_vFINAL-6.3.pdf

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* Hamilton Coimbra Carvalho, Mestre em Administração pela USP e Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Motivação e filosofia de resultados



por Hamilton Coimbra Carvalho*


Estou convicto que a sociedade vai exigir cada vez mais valor do serviço público. Valor, no caso, são resultados palpáveis, decorrentes de um trabalho de qualidade. Só que trabalho de qualidade não cai do céu. É necessário haver funcionários verdadeiramente motivados e um processo de inovação contínua. 

Indivíduos verdadeiramente motivados a entregar resultados questionam o hábito e as práticas tradicionais, o que nem sempre é confortável em organizações hierárquicas e tradicionais. A possibilidade de questionamento depende, portanto, da cultura interna da organização na medida em que existam processos e canais para apresentação e tratamento de novas ideias.

Mas ideias diferentes ou que pareçam absurdas nem sempre são fáceis de ser aceitas por causa da natural resistência humana a sair da zona de conforto. Às vezes, conseguir essa proeza equivale quase a realizar uma conversão religiosa. A experiência e a evidência científica mostram que é muito difícil persuadir alguém que já tem opiniões formadas. Por outro lado, o ser humano só é racional na medida em que, entre outros fatores, baseia suas opiniões e crenças na realidade. De que adianta uma opinião cultivada com carinho se ela não é submetida ao duro teste do mundo real? No mundo organizacional, diversos conceitos que compõem o sistema de crenças vigente são baseados meramente em usos e costumes ou em intuição. Há pouco questionamento sobre as bases empíricas desses conceitos. Quer um exemplo? Trabalho. O que é trabalho para você? Porém, antes de discorrer um pouco sobre o conceito de trabalho, uma pausa para falar de novas e excêntricas ideias que deram certo.

Tom Kelley, da prestigiada consultoria de inovação Ideo, conta no livro The Ten Faces of Innovation sobre a introdução da revolucionária técnica de salto em altura por Dick Fosbury, ganhador de medalha de ouro olímpica. É aquela técnica em que o corredor se lança de costas sobre a barra. Inicialmente ridicularizada por seus pares, acabou adotada por virtualmente todos os atletas da modalidade quando sua superioridade foi confirmada. Outro exemplo recente vem do Prêmio Nobel de Química de 2011, Daniel Shechtman, cuja descoberta de um novo padrão de arranjo da matéria em quase-cristais foi objeto inicialmente de escárnio, até que os resultados falassem mais alto do que o sistema de crenças então vigente. Sua entrevista, relatando como sua descoberta foi ridicularizada (disponível no YouTube), é imperdível. Esses dois prosaicos exemplos, entre centenas que podem ser citados, mostram que, por mais que as pessoas se aferrem a seus modelos mentais, é a realidade que vai dizer qual crença ou qual modelo está certo ou errado. 

Esse padrão é muito comum quando se trata de novas ideias: o rechaço inicial dá lugar progressivamente à aceitação e à ampla adoção. Acrescente-se que nós tendemos a valorizar muito mais as nossas próprias idéias (o famoso efeito IKEA), aumentando, assim, a resistência ao que é proposto por terceiros. Nós temos um carinho especial pelas nossas crenças. Visões distintas representam sempre uma potencial ameaça à nossa coerente visão de mundo.

Mas se queremos um serviço público que mostre seu valor à sociedade, precisamos contornar essa força quase irresistível que nos prende ao status quo. Como conseguir isso? Um primeiro passo é a adoção da filosofia de experimentos para testar propostas inovadoras. Nas organizações que adotam essa filosofia, ideias diferentes ganham o direito de serem testadas para comprovar se produzem resultados. A organização precisa também estar preparada para o erro. Tom Kelley propõe o papel do experimentador como um dos mais importantes em uma organização que se pretenda inovadora. 

O questionamento de práticas tradicionais é um passo. Mas sem funcionários motivados, é difícil pensar em inovação e geração de resultados de qualidade.  Como produzir funcionários verdadeiramente comprometidos?

A propósito, você sabe o que é motivação? A motivação dos indivíduos pode ser dividida, grosso modo, em intrínseca e extrínseca. Quando o comportamento é guiado pela expectativa de recebimento de recompensas ou punições, estamos falando de motivação extrínseca. Porém o gerenciamento na base da motivação extrínseca, tão comum nas nossas organizações públicas e privadas, gera apenas o que o estudioso da motivação Frederick Herzberg já chamava, há algumas décadas, de movimento. É o gerenciamento na base do chute no traseiro. Não gera a motivação mais nobre, a chamada motivação intrínseca. Nesta, a ação individual é alimentada por “motores” internos, que representam os valores de cada um. Dentre esses motores, cito uma trinca que tem sido considerada como mais importante em um ambiente de trabalho, de acordo com diversos autores.

Um deles é a autorrealização ou a necessidade de competência: os indivíduos tendem a se motivar se conseguem desenvolver plenamente seu conhecimento e competência na execução de suas atividades. Outro fator é a visualização de um propósito maior para as atividades executadas. As pessoas gostam de sentir que fazem a diferença. A autonomia completa a trinca. 

A autonomia é um poderoso fator de motivação na vida. As pessoas tendem a apresentar maior satisfação pessoal quando podem organizar suas atividades. Não é à toa que a satisfação individual costuma ser maior nos finais de semana. A competência que os indivíduos percebem ter em suas atividades só influencia sua motivação quando acompanhada por um sentimento de autonomia. A liberdade para o indivíduo conduzir suas ações é um dos principais fatores que explicam a motivação na sua execução.

A possibilidade de autonomia na organização do trabalho pessoal tem sido utilizada por grandes empresas como fator de atração de colaboradores de elevada qualificação, pois os funcionários tendem a apresentar maior satisfação no trabalho se têm liberdade para organizar seu tempo. As organizações começam a entender que as pessoas gostam e procuram locais de trabalho onde são tratadas como adultas. O foco passa a ser em resultados e não em controles excessivos que tolhem a autonomia, a criatividade e a energia. Maior autonomia significa que a organização confia na capacidade do funcionário para desempenhar adequada e responsavelmente seu trabalho e para atender as metas que lhe são estabelecidas em contrapartida.
Há uma intersecção impossível entre as altas demandas que são feitas aos funcionários em uma economia movida a conhecimento e a situação de baixo controle que muitas organizações ainda propiciam. Para que a motivação plena esteja presente é preciso conferir também aos funcionários alto controle sobre suas vidas.  

Autonomia de fato implica um questionamento sobre o paradigma atual de trabalho. O trabalho tradicionalmente tem sido definido como uma soma de tempo gasto na organização e dos resultados associados. Mas quanto do tempo de um funcionário é efetivamente gasto em trabalho produtivo? A percepção de que muito desse tempo é perdido em reuniões pouco efetivas e interrupções diversas é generalizada, de acordo com pesquisas com funcionários de empresas privadas.

Por que não cobrar apenas resultados e descartar o controle de tempo, por exemplo? Por que não tornar reuniões opcionais? A ideia é chocante? Saiba que na Best Buy, uma das 100 maiores empresas americanas, foi implantada há alguns anos um projeto piloto que, dado seu sucesso, se espalhou atualmente para 80% da força de trabalho da administração da empresa e que vem se espalhando para outras empresas daquele país e mesmo para órgãos governamentais. Por que? Porque funciona! A premissa básica desse projeto, que ganhou o nome de ROWE (Results Only Work Environment) é a seguinte: trabalhe quando quiser, como quiser, onde quiser, desde que você entregue resultados. Você só precisa estar presente no ambiente tradicional de trabalho quando isso for realmente necessário. Afinal, trabalho é o conjunto das atividades que você realiza e não o local físico para onde você vai todos os dias úteis. Isso é especialmente verdade no mundo atual, em que a mobilidade e o acesso remoto a sistemas e pessoas é extremamente facilitado. Em um mundo moderno em que o conhecimento e a inovação são valorizados, cobrar horário, por exemplo, é coisa do século XIX. Não sou eu quem diz isso, mas o presidente da festejada consultoria Great Places to Work.

É difícil adotar esse tipo de filosofia? É. Dá trabalho questionar os próprios modelos mentais e aceitar que a visão clássica sobre trabalho pode não ser a mais adequada. É muito desconfortável aceitar isso. Nós gostamos daquela sensação de conforto, produzida pelo nosso sistema pessoal de crenças, de que sabemos tudo sobre o mundo que nos cerca. Questionar esse sistema vai contra a natureza humana. Não é verdade?

Porém os resultados da filosofia ROWE mostram que, contrário ao senso comum, quando as expectativas e as metas de resultados são adequadamente calibradas, o trabalho em equipe e a comunicação são favorecidos e os resultados reais do trabalho melhoram sensivelmente. É uma questão empírica. De nada adianta eu defender a minha opinião sobre organização do trabalho sem que seus méritos sejam provados pela realidade. Caso contrário, trata-se de mera crença ou de um modelo mental ultrapassado. Uma organização inovadora, não custa repetir, é aquela disposta a dar chances de novas ideias serem testadas, mesmo que pareçam exóticas em um primeiro momento.

Sabe o que acontece quando o trabalho passa a ser definido apenas com base nos resultados? Quem não produz adequadamente aparece. Quem se esconde no paradigma atual, cumprindo a jornada determinada, mas pouco produzindo de relevante, fica “nu” nesse sistema. Por outro lado, os relatos de quem trabalha sob a filosofia ROWE mostram que se trabalha mais (ao contrário do que se imagina), mas com muito mais satisfação e com um grande incentivo para aumentar a produtividade e para eliminar procedimentos inúteis, que não agregam valor.

Pode parecer coisa de americano apenas, mas eu conheço sistemas de trabalho em fiscos brasileiros que têm um grau de autonomia elevado, aproximando-se da filosofia ROWE. Os relatos dos que trabalham sob esses sistemas confirmam os resultados obtidos na Best Buy. Eu mesmo já trabalhei em um sistema assim e posso garantir: não há nada no paradigma tradicional, hierárquico e altamente desmotivador, que faça com que os funcionários rendam tanto e fiquem, ao mesmo tempo, tão satisfeitos com seu trabalho. 

A propósito, na Philips do Brasil, conforme declaração de seu presidente na Época Negócios de março de 2011, 60% da força de trabalho tem ampla mobilidade. Segundo ele, em uma cidade como São Paulo, com graves problemas de mobilidade, é melhor que o funcionário nem vá à empresa, pois trabalhando à distância ele é mais produtivo.  

Para finalizar, deixo a pergunta: o que quer a sociedade dos servidores públicos? Funcionários que trabalham desmotivados e que apenas seguem procedimentos muitas vezes ultrapassados? Ou funcionários que trabalham de forma engajada e apresentam resultados reais, que melhoram a vida dos cidadãos? 

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* Hamilton Coimbra Carvalho, Mestre em Administração pela USP e Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo.

03 de junho, dia do profissional de RH



Aos servidores que atuam nos RH's 
os nossos parabéns por este dia
 e o reconhecimento orgulho diário 
pelo desafio de cuidar 
daquilo que realmente importa: 
as pessoas!

segunda-feira, 27 de maio de 2013

"Manda quem pode, obedece quem tem juízo": as relações de poder nas organizações públicas




INSCREVA-SE ATRAVÉS DO LINK ABAIXO



“Diálogos sobre Gestão de Pessoas” é uma das ações que integram o Programa de Aperfeiçoamento de Pessoal em Gestão de Pessoas e Recursos Humanos – PAP-RH, promovido pela Unidade Central de Recursos Humanos, da Secretaria de Gestão Pública. Os diálogos são compostos por encontros bimensais que, em seu conjunto, têm como objetivo discutir como o RH e uma gestão de pessoas eficiente podem contribuir com a melhoria da prestação dos serviços públicos para a sociedade.

Nesta edição dos diálogos trataremos de um tema muito caro às organizações: as relações de poder. Quando falamos em relação de poder não se trata de ordem e obediência, de um poder concentrado, centralizado ou ascendente, mas sim da dinâmica do poder existente nas relações entre indivíduos.

O objetivo do evento se traduzirá na problematização dos seguintes pontos:
  • como as relações de poder se exprimem nas organizações?
  • as relações de poder são sempre ascendente, ou permeiam os relacionamentos entre colegas, superiores, subordinados e clientes?
  • a cultura brasileira e o poder nas organizações;
  • a relação entre poder e liderança; e,
  • o poder nas organizações e a convivência.


Serviço

Vagas: serão disponibilizadas 120 vagas.

Público-alvo: Gestores de Pessoas e profissionais que atuem nos órgãos de recursos humanos das Secretarias de Estado, Procuradoria Geral do Estado e Autarquias.

Quando: 24/06/2013 a partir das 14h às 18h.

Inscrições:  a partir de 10/06/2013.

Local: R. Dona Inácia Uchoa, 574 - CEFOR - Vila Mariana - Auditório Principal.


Para maiores informações e inscrições acesse o site www.recursoshumanos.sp.gov.br/paprh

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Os jovens sabem a importância do propósito?


por Sidnei Oliveira*


Já faz algum tempo que tenho percebido o comportamento aflito dos jovens. É muito comum ver esses jovens ansiosos com os possíveis caminhos que podem ou devem tomar, sempre tomados por pressões pessoais que tentam garantir que se faça escolhas não só corretas, mas sobretudo “espetaculares”. Tudo acontecendo de forma acelerada e simultânea, como se a quantidade de possibilidades pudesse garantir um resultado satisfatório e talvez até a felicidade em cada passo dado. Esses jovens dedicam uma enorme energia em serem um sucesso e serem reconhecidos por isso. Entretanto, toda essa energia não está trazendo os resultados esperados. Frustração, decepção com a carreira e ansiedade extrema para novos desafios são características cada vez mais presentes, levando os jovens a ações sem foco e com o consequente resultado frustrante. 

O que acontece? Com todos os recursos, todo o acesso às informações, todo o cenário atual, não era para estar acontecendo justamente o oposto?

Os jovens da geração Y tiveram o privilégio de desenvolverem uma grande intimidade com toda a tecnologia de conectividade e, portanto, se apresentam muito mais preparados para extrair todo o potencial dos comportamentos resultantes dos novos conceitos de comunicação. Normalmente, isso é associado a melhor desempenho e produtividade, contudo, é justamente aí que estamos observando os maiores desafios, pois os jovens foram expostos mais tardiamente às experiências que desenvolvem o conhecimento tácito.

Para suprir essa falta de conhecimento tácito, alguns jovens acreditam que quanto mais cenários diferentes experimentarem, mais estarão preparados. Essa é uma estratégia equivocada, pois confunde experimentação com absorção de experiência.

Creio que esteja na hora de o jovem refletir nos seus propósitos, contudo, isso também não é simples, pois esse conceito foi ligeiramente abandonado na sociedade moderna e os jovens, muitas vezes, nem entendem qual o real significado de se ter um propósito.

A geração Y necessita, com urgência, estabelecer um significado para sua própria existência. Cabe ao jovem decidir “para que” está realizando todo o esforço a que se submete diariamente. Qual é seu objetivo? Aquele que determina uma grande vontade de realizar. Aquilo pelo qual valha o sacrifício e que possa afirmar que é o seu propósito de vida.

Você já sabe qual é o seu propósito? Ainda não? Saiba que é exatamente aí que está o motivo de você ainda não ver sua vida avançar como deseja. 

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* Consultor, Autor e Palestrante, expert em Conflitos de Gerações, Geração Y e Z, desenvolvimento de Jovens Talentos e Redes Sociais, tendo desenvolvido soluções em programas educacionais e comportamentais para mais de 35 mil profissionais em empresas como Vale do Rio DocePetrobrasGerdau,Santander, TAM, Unimed entre outras.

Formado em Marketing e Administração de Empresas, autor de vários livros sobre Liderança e Administração. É  sócio-fundador da Kantu Educação Executiva, Vice-presidente do Instituto Atlantis de preservação ambiental  e membro do conselho de administração da Creditem Cartões de Crédito e do Fórum de Líderes Empresariais.

É também colunista com artigos publicados nos portais Exame.comCatho OnlineClick Carreira e Café Brasil.

http://www.sidneioliveira.com.br/samba/

Dysrationalia: Quando a inteligência não tem vez



por Hamilton Coimbra Carvalho*


O ser humano é vítima inconsciente de vieses que afligem sua percepção, suas decisões e seu comportamento, como mostram décadas de evidências da economia comportamental e da psicologia social e cognitiva. Somos bastante imperfeitos, porém temos a ilusão de que não somos.

Isso não nos impede, entretanto, de analisar o que é uma boa decisão ou se um determinado comportamento que adotamos nos conduz aos objetivos que perseguimos nas diversas esferas de nossas vidas. Eu posso, por exemplo, racionalizar a minha preguiça de fazer exercícios da forma que eu quiser, mas isso não impede um julgamento (meu ou de terceiros) de que ao não fazer exercícios eu estou me afastando de um objetivo importante para mim (saúde).

O pesquisador e pensador Keith Stanovich (Universidade de Toronto) cunhou o termo dysrationalia para descrever as inúmeras situações em que pessoas inteligentes constroem suas crenças com base em premissas frágeis ou evidências inexistentes, tomam decisões ruins ou agem de forma irracional. Muita gente se surpreende ao saber que George W. Bush tem um QI moderadamente elevado (estimado em 130), ainda que tenha tomado péssimas decisões em seus governos (e o adjetivo não se refere necessariamente ao resultado de suas ações, mas sim ao seu conhecido processo falho de tomada de decisões, como mostra o professor Stanovich em um de seus livros).

A evidência científica é muito clara ao mostrar uma baixa ou inexistente correlação entre indicadores de inteligência (como testes de QI) e indicadores de racionalidade (que existem, mas são poucos conhecidos). Em outras palavras: inteligência não é vacina contra irracionalidade.


Dysrationalia no nosso cotidiano pessoal e profissional

Dysrationalia não se aplica apenas a casos extremos. Todas as vezes em que tomamos decisões ou agimos de modo que não maximiza nosso bem-estar e nossos objetivos (ou de nossas organizações e sociedade), estamos sendo vítimas desse mal. Por exemplo, exibimos dysrationalia todas as vezes em que:
  • Baseamos nossos modelos mentais em crenças irreais (exemplo: todo contribuinte é um sonegador voluntário)
  • Avaliamos a realidade de forma binária, ignorando que a maior parte das questões sociais que nos afligem têm argumentos contrários e favoráveis, fortes e fracos
  • Temos opinião formada e definitiva sobre tudo, ignorando que a realidade é complexa e frequentemente ambígua
  • Não sabemos analisar a qualidade dos argumentos e somos vítimas de falácias lógicas
  • Baseamos a discussão de questões importantes em argumentos fracos e blindados, desvio do foco, falácias e argumentos ad hominem (exemplo: se você não concorda comigo, deve ser um idiota)
  • Tomamos decisões importantes com base em regras banais ou usos e costumes (exemplo: isso sempre foi feito assim, para que mudar?)
  • Evitamos questionar as atividades que realizamos e vetamos o questionamento alheio
  • Nos aferramos (automaticamente) às nossas crenças e não as mudamos em face de novas evidências
  • Acreditamos no poder superior da "intuição"
  • Não entendemos o método e a construção do conhecimento científico (exemplos: minha tia fumou a vida toda e não morreu de câncer; celular causa câncer?)
  • Não achamos importante conhecer o que as evidências científicas dizem a respeito de diversos assuntos relacionados com nosso cotidiano (exemplos: que papéis um chefe deve desempenhar? Qual o papel do dinheiro na motivação? O que é liderança? Brainstorming é melhor do que geração individual de ideias?)
  • Ignoramos os diversos vieses cognitivos que nos afligem o tempo todo
  • Somos vítimas de soluções superficiais para problemas complexos.



Como é difícil superar nossa tendência natural à dysrationalia

Muita gente que se diz democrática até que alguma opinião que lhe é cara (uma "vaca sagrada") seja contestada. É difícil aceitar a divergência. É muito difícil se colocar no lugar do outro, porque nós achamos que a nossa visão é a única "objetiva". É a conhecida ilusão da objetividade ou o realismo ingênuo, um dos principais vieses que nos afligem de forma invisível – a evidência científica é cavalar. Outros vieses relacionados ao mesmo tema são o viés do falso consenso (acreditar que nossas crenças e opiniões são compartilhadas pelos outros) e o chamado myside bias, que é o processamento enviesado de informações com base nas nossas opiniões prévias. Peça para um militante de algum partido político uma análise de qualquer fato político controverso e você provavelmente terá uma boa amostra do myside bias.

Ao sermos vítimas desses vieses e ao não procurar corrigi-los, somos levados a decisões que frequentemente são ruins e, nos relacionamentos sociais, nos afastamos e criamos pontos de atrito com quem discorda de nós e não vê a (nossa) "verdade". Deixamos de discutir adequadamente e em profundidade temas que são importantes para nossas carreiras e para as nossas organizações.

De fato, verdade seja dita, todos nós, em algum grau e com alguma frequência, somos vítimas de dysrationalia. A consciência disso é o primeiro passo para a adoção de alguns reparos, mas a mudança individual é difícil e penosa.


Dysrationalia em nível coletivo: e as carreiras públicas?

Nas organizações públicas e privadas, é comum a existência de “cadáveres”: tipicamente processos que não agregam valor e que são mantidos por inércia. Considere os recursos que sua organização emprega (tempo, dinheiro, atenção, esforço) nas diversas atividades. Frequentemente há atividades cujo valor adicionado aos objetivos organizacionais nos últimos anos é pequeno, nulo ou mesmo negativo.

Dysrationalia é o maior obstáculo ao bem-estar individual e ao desenvolvimento das organizações e das sociedades. A história dos negócios é pródiga ao mostrar exemplos de empresas famosas e bem-sucedidas que ficaram presas a modelos mentais que foram perdendo aderência com o mercado, até serem engolidas. Foram vítimas de dysrationalia em nível coletivo. Poucos líderes têm essa consciência. Como dizia ex-CEO da IBM Samuel Palmisano não importa o seu negócio, ele inevitavelmente se deteriorará com o passar do tempo. O sucesso das organizações depende frequentemente de desaprender o aprendido e aprender o desconhecido, expondo-se ao erro e ao desconforto.

A minimização da dysrationalia em nível coletivo pode ser implementada por alguns caminhos promissores. O principal deles é, na verdade, um meta-caminho, digamos assim, uma abordagem em um nível macro: a gestão da cultura, esse poderoso (porque invisível em grande parte) motivador do comportamento humano, que vem sendo reconhecido paulatinamente por organizações de ponta. As carreiras públicas também tem sua cultura – é o que se chama de cultura profissional. Como em todas as culturas, nela há valores e crenças não questionadas. É importante que se diga: não se minimiza dysrationalia sem gestão da cultura e das crenças que formatam nossa visão de mundo, nossos julgamentos e nosso comportamento.

Em outro nível, vale citar o caminho apontado pelo professor de Harvard Robert Kaplan, que recomenda que as organizações criem grupos com ampla liberdade para questionar suas "vacas sagradas", o que envolve muito desconforto e vai contra a natureza humana. Como disse o fundador da Visa, Dee Hock, mudar as crenças ou os modelos mentais parece pior do que perder um membro ou um olho. O ser humano é naturalmente inclinado a viver em sua zona de conforto. Mas os indivíduos e organizações que conseguem minimizar os efeitos da dysrationalia tendem a ser aqueles que tornam o questionamento parte da própria zona de conforto.

Outros caminhos promissores são a metodologia Gestão por Descobertas (MDB – Management By Discovery), proposta pelo especialista em experts Gary Klein em substituição à tradicional e pouco realista Gestão por Objetivos, e o conceito de inovação por protótipos, em que os riscos assumidos são muito pequenos e a experimentação é contínua e incessante.

Sem dúvida, há muitas “vacas sagradas” nas carreiras e organizações públicas brasileiras. Nesse ponto eu lhe pergunto: Você está preparado para questioná-las, mesmo que lhe sejam caras?


Sem desconforto não há racionalidade

Sem minimizar a dysrationalia em nível individual e coletivo, dificilmente conseguiremos avançar no alcance de nossos objetivos. Em nível individual, precisamos aprender a nos colocar no lugar do outro, a buscar o conhecimento científico aplicável, a analisar argumentos com método e a aceitar a divergência. No nível coletivo, é preciso avançar na implementação de reparos cognitivos que anulem ou minimizem os diversos vieses individuais¹.

É preciso questionar crenças e modelos mentais, por meio do gerenciamento da cultura e outras ferramentas promissoras. Mas para tanto é necessário que os indivíduos queiram mudar. O problema é que a maioria, de verdade, não quer, mesmo que diga o contrário. Assim como existe a tendência de só enxergarmos vieses apenas nos outros (o conhecido bias blind spot, ou ponto cego do viés), nós estamos sempre abertos a mudanças ... para os outros.


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* Hamilton Coimbra Carvalho, Mestre em Administração pela USP e Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo.

¹ Um bom ponto de partida para quem tem interesse no assunto é o novo livro dos irmãos Heath, conhecidos pesquisadores da ciência comportamental – “Decisive: How to Make Better Choices in Life and Work”, Crown Business, 2013.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Dois sistemas e realidade distorcida: o naufrágio da ética



por Hamilton Coimbra Carvalho *


O comportamento desonesto varia em função dos incentivos existentes, é sensível ao contexto e facilmente racionalizável. É também contagioso, na medida em que uma “laranja podre” é capaz de contaminar os demais elementos de um grupo. Cursos tradicionais e códigos de ética geralmente são ineficazes para evitar a desonestidade. Essas afirmações são resultado de pesquisas em ética comportamental, campo do conhecimento que procura compreender como as pessoas realmente agem quando confrontadas com dilemas éticos. Não se trata, ao contrário do que possa parecer, de mera opinião, mas de dezenas de experimentos reais, feitos com todo o rigor científico, com destaque para as pesquisas conduzidas pelo professor da Universidade Duke Dan Ariely e pelo professor de Harvard Max Bazerman. A ética ganhou importância global nos últimos anos especialmente por conta dos escândalos financeiros nos Estados Unidos. Mas o tema tem também importância para nós, brasileiros, entre outros motivos porque nosso país costuma aparecer mal posicionado em rankings que medem a percepção de corrupção.


Dois sistemas 

Em boa parte das infrações éticas, o comportamento desonesto passa despercebido pelo indivíduo – por meio de mecanismos como a cegueira motivada (motivated blindness) – ou é construído de forma a que o indivíduo mantenha sua autoimagem positiva. Para entender por que freqüentemente existe um buraco ético na ação humana, é preciso considerar que o nosso comportamento é regido por dois sistemas: o chamado Sistema 1, baseado em hábito, em regras de decisão automáticas, bastante sensível ao contexto e à possibilidade de prazer (ganho) imediato e o Sistema 2, deliberativo, lento, analítico e que comporta os ideais e valores individuais. O Sistema 1 rege a maior parte do comportamento social, permitindo a economia dos escassos recursos cognitivos do Sistema 2, que funciona em standby. Quando os incentivos ao comportamento desonesto são muito altos, é muito provável que o Sistema 1 seja engajado, acarretando o provável desvio de conduta e a posterior racionalização desse comportamento.


Eticidade restrita e realidade distorcida

O conceito de sistemas duplos implica um conceito de eticidade restrita (bounded ethicality). Diversos vieses e processos psicológicos atuam para que o comportamento executado seja diferente do ideal ou previsto. Os indivíduos geralmente não conseguem prever de forma realista como agirão de verdade em dada situação: imaginam, por exemplo, que resistirão a tentações diversas ou que não sucumbirão à pressão do grupo e do contexto. Além disso, a memória humana reconstrói as ações de forma idealizada, de modo que eventuais incoerências passam despercebidas ou são reinterpretadas. Assim, um dos problemas com as abordagens tradicionais de ética é que elas não capturam a distância que existe entre o comportamento real e a percepção favorável que os indivíduos têm sobre si.

Muitas vezes o dilema ético não é reconhecido como tal, pois entra em ação um mecanismo de reconstrução da realidade, no qual a dimensão ética é alijada. Isso aconteceu em inúmeros casos conhecidos, como na catastrófica opção pelo lançamento da Challenger, em que a decisão técnica que apontava alto risco de explosão foi desconsiderada e reconstruída como mera decisão de negócios. O mesmo tipo de reconstrução pode ser aplicado, por exemplo, às decisões relativas ao pagamento de impostos ou a qualquer outra situação em que se torna muito conveniente alijar a dimensão ética da decisão. Isso nos leva a um ponto importante na análise dos fenômenos sociais: a realidade está na cabeça das pessoas. Ela é construída a partir dos elementos presentes no contexto social em que o comportamento ocorre e é facilmente maleável, dependendo do enquadramento adotado pelos atores envolvidos.


O músculo moral

Todos nós temos um mecanismo interno de recompensas que reflete os valores pessoais e as normas internalizadas da sociedade e que está ligado a centros que processam o prazer no cérebro. Isto é, agir de acordo com nossos valores é prazeroso. A ativação desse mecanismo leva à inibição do comportamento desonesto mesmo diante de tentações. É um mecanismo limitado, todavia, pois depende de recursos cognitivos escassos, como o autocontrole, e tende a ceder (abrindo espaço para a racionalização) quando o incentivo percebido para o comportamento desonesto é muito elevado.  


Dinheiro em formato simbólico

Provavelmente poucos sonegadores de tributos entrariam em um banco para roubar dinheiro. De fato, consistente com a ideia de comportamento construído, a evidência mostra que a desonestidade tende a ser maior quando a possibilidade de ganho é expressa em representações mais abstratas e simbólicas do dinheiro. Um exemplo seria o ato de cozinhar os livros contábeis, no caso da Enron, ou ainda, no nosso contexto, fraudes com créditos tributários. Por outro lado, em alguns casos é possível ativar a identidade moral e mitigar a adoção de condutas desonestas. Dan Ariely provou que procedimentos que tornem saliente o conceito de honestidade e/ou a imagem que a pessoa gostaria de transmitir de si própria favorecem o comportamento honesto.

Em conclusão, a evidência científica disponível mostra um caminho promissor para abordagens que diminuam os incentivos ao comportamento desonesto existentes em determinado contexto, que levem em conta o conceito de eticidade restrita e que favoreçam a ativação do músculo moral dos indivíduos. 

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* Hamilton Coimbra Carvalho, Mestre em Administração pela USP e Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo.