Congresso 2015

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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Bônus no serviço público: muito mais problema do que solução



por Hamilton Coimbra Carvalho*



A evidência histórica mostra que iniciativas cheias de boas intenções e, acima de tudo, que se baseiam em senso comum ou no “bom senso” frequentemente produzem resultados opostos aos pretendidos. Causas desses fracassos incluem não só o que se chama de “arrogância epistêmica” (ou a pretensão de saber tudo), mas também a ignorância de facetas do comportamento humano que vem sendo impiedosamente desvendadas nas últimas décadas por campos do conhecimento como a economia comportamental e a psicologia social. Exemplos de iniciativas que faziam sentido, mas que foram desastrosas na prática, foram os Projects nos EUA (grandes projetos habitacionais dedicados a erradicar a miséria) e o projeto Scared Straight , que expunha jovens infratores à vida real nas prisões. Este último projeto pretendia “assustar” os jovens e desincentivá-los a continuar cometendo infrações, mas teve o efeito oposto.

O tema deste artigo é um dos ingredientes da mais nova receita de gestão para os problemas do setor público (não só o brasileiro). Trata-se do bônus por alcance de resultados e das fórmulas para estimar esses resultados. Na superfície uma boa ideia; na prática nem tanto, como veremos.

B.F. Skinner, pai do behaviorismo, deve estar regozijando no Além. Muito tempo depois de a evolução científica ter mostrado que o modelo de comportamento humano baseado em punições e recompensas é um modelo bastante incompleto, eis que diversas iniciativas de gestão pública vêm propondo, nos últimos anos, medidas baseadas no velho paradigma behaviorista. Na verdade, trata-se de um espraiamento da mesma ideia potencialmente problemática que se multiplicou no setor privado nas duas últimas décadas, a de se atrelar parte da remuneração ao cumprimento de metas. Basicamente, o que se procura é melhorar o desempenho dos servidores oferecendo bônus pelo cumprimento de alguns resultados ou ações específicas.

Leio nos jornais que governos no Brasil se preparam para oferecer bônus aos policiais pelo atendimento de metas baseadas em alguns indicadores, entre os quais a satisfação do cidadão e a produtividade operacional (como a quantidade de droga apreendida). É curioso que, ainda outro dia, refletindo sobre o modismo dos bônus para professores, o badalado escritor Daniel Pink, autor do excelente Drive e conhecido por 10 entre 10 profissionais da área de motivação, questionava, em tom de ironia, se iríamos também pagar bônus aos policiais (americanos, no caso) para incentivar a diminuição das taxas de criminalidade nos distritos ou em função do número de multas de trânsito emitidas [i] .

A ideia básica por trás dessas medidas é a de que, quanto mais se reforçar o comportamento esperado (com recompensas ou, no linguajar moderno, bônus), mais desse comportamento será obtido. Mas será esse o caminho para melhorar o desempenho policial e diminuir a criminalidade? Ou, reformulando a questão, essa fórmula poderia ser aplicada para melhorar o desempenho de qualquer profissional cujo trabalho envolva um mínimo de julgamento, raciocínio e conhecimento abstrato? Acredito que não e vou apresentar os argumentos que embasam minha opinião.

Nas medidas de remuneração por resultado, encontradas nos modelos de gestão pública atuais, dois tipos básicos de indicadores costumam estar presentes (entre outros): indicadores de impacto (exemplos: redução da criminalidade, testes de desempenho em disciplinas escolares, satisfação do cidadão) e indicadores de meios – geralmente alguma variante de uma tabela de produtividade que liste a quantidade de procedimentos diversos executada pelo profissional.


Problemas com indicadores de impacto

O problema com os indicadores de impacto é que sua melhora usualmente não depende apenas da ação da organização por eles avaliada. Assim, os professores e a escola como um todo influenciam na escolaridade dos alunos, mas a família e a comunidade onde os alunos vivem também. A atuação da polícia influencia na redução da criminalidade juntamente com outros potenciais fatores, como a evolução demográfica e a atuação de organizações sociais. Por sua vez, o aumento da arrecadação de impostos depende da ação do Fisco, mas também de mudanças na legislação e na economia. Em alguns desses casos é possível, com o emprego de técnicas sofisticadas, isolar o peso de alguns desses fatores. Mas geralmente é uma análise que tem um horizonte um pouco mais longo e sujeita a revisões.

Não, não se está advogando o abandono desse tipo de indicador. Ele é necessário para balizar a ação das organizações públicas. O problema, na minha visão, surge quando se atrela a remuneração dos servidores a esses indicadores. Entre outras questões que impedem ou dificultam sua efetividade, esses indicadores:
  • tendem a não refletir adequadamente o esforço individual (com a exceção provável dos professores de disciplinas cobradas nos exames, mas como medir adequadamente, por exemplo, a atuação de um médico na saúde da sua comunidade ou a de um fiscal na arrecadação de tributos?);
  • tendem a não gerar feedback das ações das equipes de trabalho e da organização em tempo adequado ( feedbacks demorados tem peso desfavorável na motivação) e
  • geralmente tem influência de outros fatores na sua variação, como mencionado acima.


Com isso, em vez de faróis para o comportamento organizacional individual, eles tendem a se converter em fonte de ansiedade, preocupação e desconfiança, especialmente quando o bônus representa um valor relativamente elevado na comparação com a remuneração regular. Quem é que pode contar com um bônus incerto e de cálculo demorado para compor um financiamento imobiliário, por exemplo? Os problemas não são só esses, como veremos.

Em todo o mundo, é na área da educação que a alardeada solução dos bônus por desempenho tem sido mais empregada. Os detalhes específicos de cada intervenção variam. Na Grã-Bretanha, por exemplo, os bônus se incorporam à aposentadoria, ao contrário do que tipicamente acontece no Brasil. Nos programas de bônus na área de educação, o indicador de impacto comumente utilizado é uma combinação de avaliações (provas) anuais, restritas a algumas das matérias comumente ensinadas.

Surge então um grande problema: a escola não se presta apenas a ensinar o conteúdo cobrado nessas avaliações. Em primeiro lugar, outras matérias compõem o currículo escolar e, se elas não entram nessas avaliações, há um grande incentivo para as escolas diminuírem a ênfase nessas matérias. De acordo com o economista da Universidade de Chicago James Heckman, prêmio Nobel de Economia, a ênfase em testes empobrece a qualidade da educação [ii] . Segundo ele, as escolas dos Estados Unidos passaram a abandonar aulas de música, física e outros assuntos, por entenderem que não são relevantes para o que lhes é cobrado (leitura e matemática). Como ele mesmo diz – e esse é um dos cernes da crítica que se desenha neste artigo: “ Se eu digo que algum aspecto da sua vida será recompensado e outros não, as pessoas vão naturalmente desenvolver a parte que é mais recompensada ”. Em resumo, as pessoas respondem aos incentivos.

Mas não é o desenho de outros incentivos que corrige os problemas inicialmente criados. Como lembra Barry Schwartz em uma de suas apresentações no evento TED [iii] , a confiança excessiva em incentivos para resolver problemas sociais leva à busca de uma estrutura perfeita de recompensas, que é, na prática, impossível de ser montada, pois os indivíduos estarão sempre dispostos a burlar qualquer sistema de incentivos que as desmoralize em suas atividades. O problema central nos sistemas de recompensa que tem se disseminado no setor público mundial, na verdade, é a transformação daquilo que Dan Ariely chama de mercados sociais (baseados em propósito, cooperação, responsabilidade etc.) em mercados monetários, em que as regras do jogo são outras (baseadas na premissa do “o que eu ganho com isso?”).

Voltemos à escola. Em segundo lugar, seu papel não é apenas transmitir conteúdo, mas ensinar a pensar, a construir conhecimento e produzir a transferência do aprendido para outros contextos, como ensina o professor de educação de Harvard David Perkins [iv] .

Em terceiro lugar, hoje se sabe que a chamada autorregulação (termo técnico para o autocontrole e a capacidade de estabelecer planos, objetivos e cumpri-los) é um fator essencial para o sucesso futuro da criança na sua vida adulta [v] . Esse fator – que é especialmente crítico para as crianças mais pobres – supera, inclusive, a inteligência na previsão desse sucesso, o que estimulou algumas iniciativas bem-sucedidas nos EUA para desenvolvê-lo em tempo hábil nas escolas. Mas a capacidade de autorregulação não é medida nos indicadores tradicionais de desempenho.

As críticas feitas aqui ao uso dos testes de leitura e matemática para a remuneração de professores também se estende a outros setores. Por exemplo, como se deve avaliar o papel do Fisco? Pelo número de autuações de contribuintes? Pelo aumento da arrecadação? Pela diminuição da sonegação? Pelo tratamento dado aos contribuintes nos inúmeros serviços prestados? Pela inovação em processos, produtos e serviços? Pelas mudanças conduzidas na regulamentação? (Vou parar por aqui, mas eu consigo pensar em uma lista bem mais extensa). Então, para evitar que apenas algumas de suas facetas sejam estimuladas pelo sistema de remuneração variável, seria necessário mensurar todas elas – e isso admitindo que a remuneração pelo atingimento de metas levaria à evolução esperada, o que é uma presunção   frágil.  

Outro problema potencialmente presente em sistemas de remuneração por desempenho é o incentivo a condutas antiéticas. É conhecido o exemplo do sistema que remunerava trabalhadores por partes de insetos encontradas na linha de produção de uma unidade da multinacional General Mills . O objetivo era nobre, o de melhorar a qualidade. Mas o sistema de incentivos favoreceu que os trabalhadores trouxessem insetos de casa, para ganhar mais [vi] . Há evidência científica mostrando que, quando os indivíduos são remunerados pelo atingimento de metas, eles têm maior probabilidade de incorrer em comportamentos antiéticos, entre outros efeitos importantes indesejados [vii] . Veja-se, quando se remuneram comportamentos específicos, adentra-se no mercado monetário, cuja regra básica é: “o que eu ganho com isso?”.


Problemas com tabelas de produtividade

Passemos agora à outra solução que tem sido dada no âmbito de programas de remuneração por desempenho no setor público. Trata-se da atribuição de bônus por desempenho baseado em tabelas de atividades ou tabelas de produtividade. Essas tabelas tipicamente pretendem mensurar as diversas atividades executadas pelo profissional. No caso de servidores públicos, considere-se, por exemplo, todo o rol de atividades que compõe o trabalho de policiais, fiscais de tributos, professores e médicos. Policiais realizam atividades como apreensão de drogas e revistas de suspeitos. Fiscais realizam auditorias em empresas. Professores dão aulas e aplicam provas. Médicos realizam consultam e executam procedimentos de saúde. Esses são apenas alguns exemplos de atividades desempenhadas por esses profissionais. Qual o problema em fazer uma tabela que contemple todas as atividades tipicamente desempenhadas e dar bônus pelo seu cumprimento?

Os problemas são diversos e alguns tem relação direta com os listados acima. Vou retomar alguns deles na descrição de sete problemas específicos com tabelas de produtividade.  

O primeiro é a dificuldade prática de especificação, em um contrato de trabalho ou tabela de produtividade, de todos os comportamentos e ações possíveis (e desejáveis) do profissional. É muito difícil para qualquer organização listar à exaustão todas as atribuições de um profissional, especialmente de um profissional do conhecimento. Um analista deve atender o telefone do vizinho de baia? Um vendedor deve ajudar um outro colega em dificuldades com um cliente? Um professor deve conversar com um pai de aluno fora do horário estabelecido? A realidade é complexa e está sempre mudando. Além de ser impossível prever e especificar todos os tipos de comportamentos esperados, sempre há potencial para que novas demandas, fora da tabela de produtividade, apareçam. Assim, toda tabela de produtividade tende a ser incompleta.

O segundo problema é decorrente do primeiro. Como as tabelas levam o profissional a focar exatamente na relação de comportamentos premiados ( o que se mede é o que se obtém ), passa a ser necessária a confecção de uma tabela de produtividade enorme para dar conta de todos os comportamentos tipicamente esperados em dada atividade. Como vimos com o exemplo das escolas acima, o que ficar de fora, por não ser recompensado, tenderá a não ser realizado. Isso tem potencial para inibir, por exemplo, a chamada cidadania organizacional, que é o comportamento dos profissionais, fora de suas atribuições habituais, em prol de outros colegas e da organização. Um exemplo é quando se precisa de ajuda para executar determinada atividade não habitual (como organizar um evento) e a ajuda vem de um colega de trabalho com espírito de colaboração, mesmo que a atividade não seja sua “obrigação”. Isso é cidadania organizacional e é um comportamento que vale ouro para as organizações. Vamos instituir bônus também por cidadania organizacional? Como?

Bom, digamos que tenhamos uma tabela de produtividade que abarca praticamente todas as atividades típicas do profissional. O terceiro problema é que se esse rol de atividades for extenso, como acontece com profissionais do conhecimento, será necessário o dispêndio de tempo e energia preciosos para controlar a execução de todas as atividades. O controle pode se tornar excessivo, a ponto de prejudicar o desempenho das próprias tarefas que se propõe a medir.

Em quarto lugar – e esse é o argumento mais importante – todo o conhecimento científico na área de motivação mostra que quando o comportamento é guiado exclusivamente pela expectativa de recompensas e punições (a chamada motivação extrínseca), os indivíduos paulatinamente deixam de se sentir a origem dessas ações (o que tecnicamente é chamado de locus de controle ) e tendem a executá-las em função do controle externo que percebem sobre si. Com o tempo, a chamada motivação intrínseca (fazer as coisas de livre vontade porque são entendidas como importantes) tende a ir embora – é o que diz a evidência. As regras do jogo deixam de ser a de um mercado social.

Por favor, responda mentalmente às seguintes questões. Que tal pagar as pessoas para doarem sangue, com a intenção de aumentar o número de doadores? Ou pagar alunos adultos para participarem de cursos de alfabetização? Ou pagar cidadãos pobres para executar comportamentos que lhes beneficiam, como ir ao dentista e ao médico? Ou cobrar multas por atrasos dos pais na hora de buscar os filhos na creche? Ou oferecer dinheiro a cidadãos para abrigar instalações de lixo nuclear perto de suas casas? Faz sentido, não faz? Pois esses são exemplos clássicos, existentes na literatura científica, que mostram que, quando essas medidas são implementadas, os seguintes resultados são observados: cai o número de doadores, cai o número de alunos na alfabetização, os pobres não executam os comportamentos esperados, cresce o número de atrasos na creche e há menos pessoas dispostas a aceitar a vizinhança do lixo nuclear. É o mesmo mecanismo em ação na educação dos filhos, por exemplo. Imagine educar seu filho na base de prêmios por bom comportamento (prática utilizada com certa frequência em famílias americanas, por exemplo). Que tal uma estrelinha, conversível em brinquedos ou dinheiro, para cada boa nota na escola, cada episódio de colaboração doméstica e assim por diante? O que a evidência científica diz é que, com o tempo, a ação passa a ser feita apenas pela expectativa do prêmio. Sem prêmio ou punição, nada feito e a importância dos vários comportamentos deixa de ser internalizada. O ponto principal é que os modelos recentes de gestão pública que eu tenho visto trazem não apenas uma visão que é unidimensional do comportamento humano. Essa visão, baseada em moldar comportamentos com recompensas financeiras, não é apenas unidimensional, mas é frequentemente errada, ainda que soe altamente intuitiva.

O quinto problema com uma tabela de produtividade é que ela diminui a flexibilidade das ações da organização no alcance dos indicadores de impacto. Admitamos, para fins de exemplo, que a missão do Fisco seja o aumento da arrecadação por meio do combate à sonegação, do estímulo ao pagamento voluntário de impostos e da simplificação das obrigações dos contribuintes. Essa missão se desdobra em estratégias, que se desdobram em diversas ações da organização. Por sua vez, essas ações envolvem conjuntos diversos de atividades desempenhadas por departamentos, equipes e pessoas. Ocorre que a tabela de produtividade pode ficar engessada, refletindo estratégias e ações que foram aperfeiçoadas ou abandonadas. De fato, uma tendência atual é a de revisão constante das estratégias e ações das organizações, tamanha a velocidade de mudanças no macroambiente. Em tese esse não seria um grande problema para organizações bastante ágeis, mas isso não costuma ser o caso em organizações públicas, que possuem processos geralmente mais lentos.

O sexto problema identificado em relação às tabelas de produtividade é sua dificuldade de calibração, tanto entre departamentos quanto na aferição do desempenho ótimo. A experiência deste autor em pelo menos uma organização que utiliza essa ferramenta mostra que é difícil uniformizar a medida de esforço entre os departamentos da mesma organização. Isto é, em alguns departamentos pode ser relativamente fácil atingir a pontuação esperada, enquanto em outros pode ser extremamente difícil. Além disso, como é sempre complexo estimar o nível de desempenho ótimo entre as diversas atividades, dois problemas sérios podem ocorrer. O primeiro deles é que o profissional, ao perceber que pode atingir sua pontuação antes do final do período de avaliação, tem um incentivo para reduzir seu nível de esforço. O segundo deles é que se as metas forem muito difíceis ou impossíveis de serem atingidas, será gerado uma situação de stress ou de desestímulo à produtividade (como prevê a teoria que estuda o efeito de objetivos na motivação), prejudicando o servidor, a organização e, em última análise, a prestação de serviços de alta qualidade aos cidadãos.

O sétimo problema é a dificuldade de medir a qualidade do trabalho de profissionais de conhecimento, o que faz com que as tabelas geralmente se concentrem na quantidade das atividades.

Assim, pelos motivos rapidamente discutidos, acredito que criar tabelas de atividades ou de produtividade também não é o caminho para estimular o desempenho dos servidores públicos.


Bônus: Onde estão as evidências?

As evidências de que bônus por desempenho funcionam em atividades que exigem um mínimo de trabalho intelectual são, na melhor das hipóteses, mistas. Tomemos a remuneração variável dos professores, por exemplo. O primeiro estudo científico realizado sobre o tema nos EUA, em formato de experimento com grupo de controle, mostrou que recompensas a professores, por si sós, não levam a aumentos na nota dos alunos [viii] . Como nota metodológica, é preciso ressaltar que isso não implica necessariamente que tal medida não possa dar resultados em combinação com outras medidas – é comum que medidas só funcionem quando atuam em conjunto. Mas ressalte-se: este foi o primeiro estudo científico nos EUA, realizado entre os anos de 2007 e 2009, analisando uma medida que compõem o rol de recomendação da nova gestão pública há pelo menos uma década. Veja-se o que diz parte do sumário do estudo [ix] , em uma tradução livre:  
O projeto se baseou na noção de que um problema significativo na educação americana é a ausência de incentivos adequados, e que corrigir essa estrutura de incentivos iria, por si só, constituir uma intervenção efetiva que melhoraria o resultado dos estudantes. (...) Os resultados não confirmaram essa hipótese.

Na literatura acadêmica há décadas se estuda o efeito de recompensas no desempenho, mas tipicamente o que se observa é o aumento no desempenho de tarefas mecânicas em resposta a um sistema de remuneração variável – com relação a isso não há praticamente controvérsias. Mas estamos tratando de profissões que envolvem mais do que atividades mecânicas – envolvem decisões, análises e raciocínio abstrato. A conhecida Teoria da Autodeterminação ( Self-Determination Theory ) explica, com larga comprovação por evidências, que a oferta de recompensas ou punições para o controle do comportamento humano frequentemente leva a uma mudança de atribuição por parte dos indivíduos. A origem da ação (em termos técnicos, o locus de controle ) deixa de ser percebida como interna e o comportamento passa a se sustentar em função dos fatores externos (recompensas ou punições). Na ausência desses fatores, a ação tende a desaparecer. O que a teoria diz e as evidências comprovam é que o uso de fatores externos para motivar o comportamento humano, ao modificar a percepção de origem da ação, tem grande potencial para inibir o comportamento que se quer controlar.

Analisando os resultados de um congresso sobre a remuneração por desempenho de professores, realizado em Harvard no ano de 2010 (chamo atenção para o ano), o economista (da mesma universidade) Edward Glaeser concluiu que os incentivos implantados nos Estados Unidos tendem a ser ou mal desenhados ou subvertidos no nível local quando impostos de cima para baixo e que talvez fosse mais sensato utilizar os recursos simplesmente para atrair os melhores professores para as escolas, mesmo sem a remuneração por desempenho [x] . Na mesma peça de Glaeser há a menção ao já famoso estudo de Muralidharan e Sundararaman [xi] , realizado com rigor científico em escolas rurais da Índia, que constatou o efeito positivo de incentivos para professores naquele país. Porém os autores do estudo tiveram a humildade de considerar o que a ciência da motivação (estudada tipicamente por psicólogos e não por economistas) sabe sobre o efeito de incentivos sobre a motivação intrínseca. De fato, o bônus funcionou, mas para que ele não alterasse o locus de controle dos professores e inibisse sua motivação interna, ele foi estabelecido em apenas e tão somente 3% de sua remuneração anual. Vou escrever por extenso: três por cento! Nada mais em desacordo com o dogma vigente, não? Veja-se ainda, para ficar no exemplo da educação, que o badalado sistema finlandês de ensino não tem absolutamente nada de remuneração por desempenho, o que significa que os propalados bônus não são condição necessária para se ter um serviço público eficaz e de qualidade. Veja-se ainda que a aplicação do sistema de bônus na educação paulista tem obtido resultados extremamente tímidos até o momento [xii] .

A evidência contra o efeito dos bônus vem também do trabalho empírico do famoso economista comportamental Dan Ariely, professor da Universidade de Duke. Comprovando mais uma aplicação da conhecida lei Yerkes-Dodson (que relaciona níveis de stress com desempenho ótimo), Ariely constatou que maiores remunerações em atividades que demandam um mínimo de pensamento levam a desempenhos piores, contrariando o senso comum [xiii] . Além disso, como mostra o pai da economia comportamental e prêmio Nobel de economia Daniel Kahneman em seu último livro ( Thinking Fast and Slow ), muito do desempenho que se tenta recompensar com bônus em empresas é causado simplesmente por fatores aleatórios que existem nos diversos mercados [xiv] . Como já mencionado, há também um vasto conjunto de evidências, especialmente na linha de pesquisa da Teoria da Autodeterminação, que comprova o efeito deletério de grandes recompensas na motivação intrínseca. E, por fim, o que se tem visto no mercado é os grandes bônus anuais geralmente levam os CEOs a procurar resultados de curto prazo, em detrimento da geração de valor de longo prazo para as empresas.


Ainda a educação

Recentemente um economista americano realizou experimentos em escolas daquele país, pagando a alunos pelo bom desempenho escolar, incluindo-se, por exemplo, a leitura de livros [xv] . A justificativa para a introdução da remuneração variável no serviço público é a mesma que, em tese, justifica pagar alunos para ler livros ou tirar boas notas. É o velho princípio behaviorista em ação: quer mais de determinado comportamento? Recompense-o. Mas é isso que queremos para os nossos alunos?

Ainda no campo da educação, ao falarmos de novas fórmulas de gestão, frequentemente nos esquecemos do grande problema estrutural brasileiro, que é o subsídio público à educação superior, que beneficia muito poucos (e que, em boa parte, poderiam pagar por essa educação), tirando recursos fundamentais que possibilitariam diminuir a revoltante tragédia social dos diversos nichos de pobreza no nosso estado e país. Para quem quer ter uma ideia dessa tragédia, sugiro a leitura da reportagem que a Veja São Paulo fez recentemente sobre o bairro paulistano do Parque Santo Antônio [xvi] . Dados da Fundação Casa indicam que arte considerável dos jovens infratores do município de São Paulo vem de um punhado de bairros. É preciso uma ação diferenciada do Estado para mudar essa situação. Sua fraca atuação, premido por um “cobertor curto” e por decisões equivocadas do passado, continua a destruir o futuro de gerações e gerações de crianças pobres, impactando a vida de todos nós.


Qual é a solução?

Mas voltemos à nova gestão pública. Como visto, seus modelos com frequencia apresentam uma visão unidimensional da motivação humana e esse é um de seus pecados originais, pois ignoram revoluções que ocorreram nas últimas décadas no estudo científico da motivação humana. Os incentivos podem até funcionar no curto prazo, mas a evidência mostra que eles são contraproducentes no longo prazo. Outro pecado original é o pouco peso dado à cultura organizacional. Lou Gerstner, responsável pela virada da IBM na década de 90, tem uma declaração célebre nesse sentido: “cultura não é apenas uma parte do jogo – é o jogo”. Sem o reconhecimento da influência da cultura organizacional (geralmente invisível para os membros da organização) e sem sua gestão ativa, muitas iniciativas de modernização vão continuar morrendo na administração pública.

Ainda assim, sejamos justos. A chamada nova gestão pública se apoia em algumas premissas que me parecem no caminho correto, tais como perspectiva do cidadão, meritocracia (que não necessita se apoiar em remuneração variável) e foco em resultados. Não se gerencia adequadamente sem bons indicadores. Além disso, a administração pública existe para servir o cidadão da melhor maneira possível. O serviço público precisa buscar continuamente as melhores formas de gestão, mas por melhores eu considero apenas as que tem embasamento científico – e não essa selva de modismos que usualmente toma conta do mundo empresarial [xvii] . Bônus podem até funcionar em algumas condições específicas (e contraituitivas), em combinação com outras medidas, mas frequentemente não funcionam. Há outras formas de reconhecer o mérito e de estimular a inovação e o alcance de resultados.

É preciso estruturar as organizações em torno do que as evidências mostram. A Teoria da Autodeterminação, confirmada por toneladas de evidências acumuladas ao longo de décadas, explica a motivação humana mais nobre (motivação intrínseca), que só existe em condições que proporcionem autonomia, desenvolvimento de competências e relacionamento social. É preciso redesenhar nossas organizações em torno do conceito de comunidades baseadas em confiança, propósito, princípios e pessoas, advogado por Dee Hock [xviii] . É um conceito similar ao de comunidades de prática, em que profissionais interagem em busca de um objetivo comum. O controle precisa existir, mas não pode ser excessivo e contraproducente.

O que fazer com os sistemas já vigentes? Minha sugestão: incorporem-se os atuais bônus aos salários dos servidores. Pague-se um salário justo; como diz Daniel Pink, tire-se a preocupação com o salário da vida das pessoas. Voltemos a tratar do relacionamento entre profissional e organização dentro de parâmetros de um mercado social, não de um mercado monetário. A revolução da educação finlandesa [xix] tem muito a nos ensinar. Precisamos de carreiras públicas disputadas e precisamos da formação continuada do capital humano para ter educação, saúde e serviço público de qualidade. Criem-se condições para que as pessoas deem o melhor de si. Injete-se propósito e significado no trabalho. Dá bem mais trabalho do que estabelecer bônus em dinheiro como principal ferramenta motivacional. Mas a evidência vem mostrando que as pessoas se motivam para valer quando enxergam propósito no que fazem, quando confiam na instituição a que pertencem e se sentem respeitadas, quando percebem que tem espaço para contribuir e dar o melhor de si. E o que fazer com aquela minoria que não quer trabalhar? Em vez de criar um sistema que desestimula a maioria, dê-se transparência ao que todos fazem. Quando os resultados esperados do trabalho estão claros e quando se sabe o que todos fazem, quem não trabalha aparece. A maioria dos servidores públicos quer contribuir e fazer a sua parte.

A gestão pública brasileira precisa ainda incorporar o que o governo da Grã-Bretanha tem feito com muito sucesso. Sob orientação de Richard Thaler, um dos grandes nomes da economia comportamental, foi criada uma unidade chamada de Behavioral Insights Team , com a proposta de utilizar o modo de pensar científico e os ensinamentos da behavioral economics no enfrentamento dos problemas públicos [xx] . O mantra desse grupo é o Test, Learn, Adapt : faça experimentos controlados em pequena escala, descubra o que realmente funciona (frequentemente não é o que faz mais sentido) e só então adote a melhor solução em larga escala. É a melhor forma de evitar resultados catastróficos de projetos cheios de boas intenções – e o exemplo que vem à mente é o programa Scared Straight mencionado no início deste artigo. A filosofia do programa britânico vale para qualquer problema social, incluindo-se descobrir melhores formas de produzir resultados no serviço público.

Por fim, se os governos querem insistir na solução de remuneração por resultados, que pelo menos sejam coerentes. Se os defensores dessa fórmula acreditam tanto nela, por que não atrelar, por exemplo, uma parte significativa da remuneração e de todas as demais verbas recebidas por governadores, prefeitos, secretários de governo, deputados e vereadores à evolução real e significativa de indicadores da educação e saúde públicas? Alguém aí topa um experimento?



Notas



* Hamilton Coimbra Carvalho, Mestre em Administração pela USP e Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo.

[iv] Making Learning Whole: How Seven Principles of Teaching Can Transform Education, Jossey-Bass, 2008.
[v] Vohs, K.D. e Baumeister, R.F. (org.). Handbook of Self-Regulation, Second Edition: Research, Theory, and Applications, The Guilford Press, 2010.
[xiv] O mesmo ponto foi também destacado também no excelente livro do sociólogo Duncan Watts ( Everything is Obvious – Once You Know the Answer ) e no livro do professor de administração Phil Rozensweig ( The Halo Effect ), da prestigiada escola de negócios suíça IMD.
[xvii] m último exemplo? O trabalho do incensado Jim Collins, impiedosamente destruído, pela ausência de critérios científicos sólidos em seu método, no excelente livro de Phil Rozensweig mencionada acima.
[xviii] One from Many: VISA and the Rise of Chaordic Organization, Berrett-Koehler, 2005.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Avaliação do Desempenho na Administração Pública [Diálogos sobre Gestão de Pessoas]


O evento integra o Programa de Aperfeiçoamento de Pessoal em Gestão de Pessoas e Recursos Humanos – PAP-RH, promovido pela Unidade Central de Recursos Humanos, da Secretaria de Gestão Pública. Os diálogos são compostos por encontros bimensais que, em seu conjunto, têm como objetivo discutir como o RH pode contribuir com a melhoria da prestação dos serviços públicos para a sociedade.

O diálogo do dia 21 de agosto de 2013 aconteceu no auditório da Companhia Ambienta do Estado de São Paulo – CETESB, da Secretaria do Meio Ambiente, e teve como público-alvo as lideranças públicas e servidores da área de recursos humanos da Administração Pública Paulista. Contou com a presença do Prof. Ademar Orsi, Doutor e Mestre em Administração pela Universidade de São Paulo, graduado em Administração pela Escola Superior de Administração de Negócios (atual Centro Universitário FEI), sócio da Cedro Pesquisa, Ensino e Consultoria Ltda e professor da Fundação Instituto de Administração, da Universidade Anhembi Morumbi e da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Participaram como convidados da conversação a Sra. Clodine Janny Teixeira, psicóloga formada pelo Instituto de Psicologia da USP, professora de Psicologia na Universidade UNIBAN/Anhanguera, Mestre e Doutoranda pelo Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP; o Sr. Thiago Santos, Diretor Técnico III na Unidade Central de Recursos Humanos da Secretaria de Gestão Pública; a Sra Maria José de Oliveira, Diretora do Centro de Recursos Humanos da Secretaria da Segurança Pública e Ivone Faddul Alves, Oficial Operacional da Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude.

O sr. Thiago Santos iniciou o diálogo apresentando o tema, "Avaliação de Desempenho", destacando que todos nós, a todo tempo, avaliamos, fazemos juízo de valor sobre algo.

Em seguida, o sr. Ademar Orsi fez sua apresentação, destacando os pontos importantes que devem ser levados em consideração para aplicação de um processo de avaliação de desempenho. Indicou diferentes modelos e formas de avaliação, que devem ser pensadas a partir das características/cultura da organização, frisando que não há fórmulas prontas e que os modelos e instrumentos de avaliação devem ser constantemente revistos.

No Ciclo de Gestão do Desenvolvimento, composto por planejar / acompanhar / avaliar, tem o papel da liderança como fundamental para sua efetivação. Outro tema abordado foi a percepção de justiça no processo de avaliação, pois um sistema de avaliação inadequado pode gerar no avaliado o sentimento de ser injustiçado. 

Após, foi aberto o diálogo com os convidados que destacaram suas experiências a partir de diversos pontos de vista. Foram levantados os problemas e insatisfações com os processos de avaliação de desempenho atuais e também o papel e responsabilidades das lideranças nestes processos. Tratou-se do aspecto emocional, como os impactos destes processos podem refletir no comportamento das pessoas no ambiente de trabalho.

No diálogo com o público foram apresentadas outras experiências de aplicação de avaliação de desempenho da Polícia Militar e da CET. Também foram levantadas as dificuldades de relacionamento entre chefias e subordinados, principalmente nos processo de avaliação, e a falta de envolvimento / responsabilidade das chefias com o processo.

Comentou-se, ainda, questões relacionadas à traços culturais muito fortes do povo brasileiro que dificulta enormemente os processos de avaliação não gostamos de ser avaliados. Somos muito bons em avaliar, conhecemos nossas próprias falhas, mas não gostamos de vê-las apontadas por terceiros.

Dentre as várias excelentes participações do público, destacou-se falas sobre o modelo de avaliação de desempenho atualmente adotado; sugeriu-se a criação de fóruns de discussão permanentes, para buscarem novos modelos de participação e atuação na administração pública.

O público levantou a questão da avaliação de desempenho ter relação direta com a remuneração dos servidores como sendo um aspecto negativo, pois as chefias teriam receio em prejudicar os colegas, além de procurar compensar eventuais déficits salariais com uma avaliação desproporcionalmente positiva.

O sr. Thiago fez um contraponto, lembrando a todos sobre a responsabilidade que devemos ter com os recursos públicos, com nossas entregas de cidadania e com a importância de os gestores diferenciarem os servidores através do processo de avaliação, reconhecendo os bons profissionais e alertando os não tão bons quanto aos pontos em que precisam se desenvolver.

O Prof. Orsi ainda destacou que é preciso envolver as chefias no processo de avaliação, fazendo com que eles compreendam as ferramentas de avaliação e como elas podem ser favoráveis no gerenciamento de sua equipe. 

Veja as fotos do evento: http://goo.gl/d9xLRH.


sábado, 10 de agosto de 2013

Curso livre de Gestão de Desempenho


curso gratuito

Curso presencial destinado aos gestores de nível técnico/universitário com pelo menos 2 anos de experiência como gestor e no mínimo 5 subordinados.

 

Carga horária

24 horas distribuídas em 3 dias

 

Inscrições

Para inscrições entrar em contato com o seu órgão setorial de recursos humanos. 


segunda-feira, 29 de julho de 2013

Mitos da Gestão Pública




Hélio Janny Teixeira
Doutor e Livre-docente em Administração pela FEA-USP e professor da mesma instituição.

Quem é melhor: o público ou o privado? As empresas ou o governo? Os políticos ou os cidadãos comuns? A maioria tem a resposta na ponta da língua: nada pior do que o público, o governo e os políticos. As perguntas, apesar de infantis e maniqueístas, geram respostas com conseqüências sérias e portanto deixam de ser coisa de criança. Preconceitos e concepções errôneas podem levar a decisões equivocadas e a ações desastrosas. Se o Estado é um mal, ele deve ser reduzido, deixando as soluções para o bem, ou seja, para as empresas e para o mercado. Se os políticos não funcionam, será melhor acabar com a democracia? Mas por que estas crenças são tão fortes em nosso país?

Criticar ou pensar nos erros do governo e dos políticos, principalmente pela manhã, após leitura do jornal ou escuta da rádio preferida, provoca uma sensação de alívio e de dever cumprido, ao mesmo tempo que expia as próprias culpas. A satisfação é garantida e não há risco de encontrar pessoas com argumentos contrários, ou seja, que defendam o Estado. Mas isto é correto? As críticas são procedentes? Por um lado sim. O Estado representa uma grande síntese com volume de operações gigantesco, e obviamente apresenta grandes dificuldades e desperdícios no seu funcionamento. Trata-se da instância máxima e mais importante da articulação da sociedade e, conseqüentemente, é e sempre será o principal responsável pelas suas grandes dificuldades. Ainda mais após a Constituição de 1988, que legitimou o crescimento da demanda por serviços públicos. Embora louvável, a evolução dos direitos sociais, e conseqüentemente das legítimas demandas da população, não deixa de causar apreensão quando confrontada com a capacidade de resposta do Estado tanto do ponto de vista qualitativo quanto quantitativo. Educação, saúde e segurança são exemplos cruciais de serviços insuficientes e constantemente criticados pela população.

Mas vejamos o outro lado da questão numa análise menos apaixonada. Ineficiência não é exclusividade do setor público, nem a eficiência só está presente no setor privado. E mais. O lucro muitas vezes não é uma boa medida de eficiência. Uma empresa eficiente do ponto de vista produtivo (relação entre insumos utilizados e produto gerado) pode ser deficitária em função dos preços a que está submetida sua produção (por exemplo, para combater inflação). Em geral, compara-se o que há de pior no público com o que há de excelência na área privada.

Outro mito que deve ser desfeito é o que diz que a sociedade é bem melhor do que o Estado e seus governantes. O bom cidadão seria um injustiçado diante do mau governo. A verdade não é bem essa. Existe dificuldade histórica da sociedade em organizar-se a fim de representar seus interesses desde condomínios, times de futebol etc. até os partidos políticos. É óbvio que temos os melhores jogadores de futebol do mundo. Mas o que falar dos clubes (que além de falidos não pagam seus encargos sociais), das federações, calendários etc? O individualismo e o utilitarismo imediato suplantam a ética da solidariedade e a preocupação com o bem comum. No quadro de uma sociedade marcadamente desigual, a cultura brasileira nunca teve entre os seus traços fortes a idéia de igualdade de direitos para todos, nem a valorização do interesse coletivo. Por decorrência e também para mascarar as próprias culpas, as pessoas tratam indevidamente o público como algo exclusivo do Estado. Se os problemas não são resolvidos, cresce a responsabilidade alheia. Trata-se de mais uma ilusão. Nunca teremos boa saúde e educação para todos sem profundo envolvimento dos indivíduos, das famílias, dos empresários e seus impostos, e da sociedade em geral.

A terceira grande ilusão é representada pelo entendimento de que o Estado está diminuindo e deve diminuir ainda mais. Muito embora a afirmação pareça interessante, ela não corresponde aos fatos. Todas as estatísticas recentes mostram, salvo exceções não-relevantes, que o Estado cresceu em todos os países, o que pode ser verificado por meio de medições como participação das despesas públicas em relação ao PIB. (Ver World Development Report – The State in a Changing World – 1997).

As ilusões e os mitos mencionados, embora com algum conteúdo verdadeiro, uma vez generalizados, não só obscurecem o entendimento dos problemas como levam a soluções equivocadas. Concluímos com três idéias que resumem o ponto de vista que procuramos apresentar neste artigo:
  • o Estado e o governo não são piores e mais ineficientes do que o mundo privado e a sociedade em geral. Cada instância de organização societária - Estado, mercado e sociedade - tem suas mazelas, limitações e potencial contributivo que deve ser entendido e articulado;
  • não há como fortalecer o Estado, para que enfrente as pressões como globalização e desemprego, com menos impostos e despesas; e, por último,
  • é fundamental ter como meta o fortalecimento do interesse público como valor compartilhado pela sociedade e não apenas como algo localizado institucionalmente no Estado.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Videoconferência IAMSPE "Saúde do Homem - Câncer de Próstata"





Para visualizar a Vídeoconferência basta acessar o seguinte endereço: http://media.escolasdegoverno.sp.gov.br/iamspe

As perguntas poderão ser enviadas pelo e-mail fundap.vc@fundap.sp.gov.br ,  e serão respondidas ao vivo. As videoconferências anteriores do IAMSPE poderão ser acessadas através do endereço:
http://www.escolasdegoverno.sp.gov.br   Entrar no ícone videoconferência  na parte central superior da tela. Do lado direito no ícone buscar   colocar a palavra   IAMSPE .

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Eu odeio meu chefe!




por Sidnei Oliveira*


Pronto, processo terminado! Todo o meu trabalho está feito e conferido, agora é só passar tudo para o chefe e ir embora. Não é uma saída para a casa, pois ainda é necessário ir para faculdade, mas o simples fato de terminar mais uma jornada, já dá um sentimento bom. Esse momento de satisfação, contudo, é quebrado quando o meu chefe me chama de volta e devolve o processo dizendo: “Está com erro, arrume!”.

Quase que instintivamente, uma pergunta salta de mim, em um misto de incredulidade e indignação: “Onde está o erro?” 

Essa é a hora que, com uma crueldade quase sádica, meu chefe responde: “Você é quem errou, descubra o erro e arrume...

É inacreditável a capacidade do meu chefe não se comprometer com os resultados. Ele não percebe que ao “esconder o erro”, fazendo joguinhos de adivinhação, apenas irá atrasar todo o processo? O que custa devolver o trabalho, apontando diretamente o problema? Certamente é muito mais simples e rápido para solucionar o erro. Fica claro que esse chefe precisa garantir sua autoridade e se aproveita de um erro simples para mostrar quem manda. Ele é antiquado e autoritário. Teve chefes ruins na vida e agora desconta em sua equipe. Ele não percebe que são novos tempos. Agora o chefe deve ser mais participativo, não pode ser autoritário. O que importa são os resultados e não esse jogo de poder.

Cada vez que isso acontece, eu odeio meu chefe!

Enquanto isso, na cabeça do chefe...

Novamente ele me entrega o trabalho sem perceber esse erro simples. Mesmo depois de ter explicado, ele ainda não consegue perceber. Creio que preciso usar uma nova estratégia. Desta vez, não irei mostrar o erro. Devolverei sem maiores explicações e exigirei dele, com mais rigor, a solução do problema, pois, na verdade, foi ele quem cometeu o erro. 

Está na hora dele mesmo descobrir os próprios erros e saber lidar com isso. Ele não pode ficar dependente de mim. Afinal, ele tem talentos e precisa descobrir isso.

Espero que ele não fique com ódio... 

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* Consultor, Autor e Palestrante, expert em Conflitos de Gerações, Geração Y e Z, desenvolvimento de Jovens Talentos e Redes Sociais, tendo desenvolvido soluções em programas educacionais e comportamentais para mais de 35 mil profissionais em empresas como Vale do Rio DocePetrobrasGerdau,Santander, TAM, Unimed entre outras.

Formado em Marketing e Administração de Empresas, autor de vários livros sobre Liderança e Administração. É  sócio-fundador da Kantu Educação Executiva, Vice-presidente do Instituto Atlantis de preservação ambiental  e membro do conselho de administração da Creditem Cartões de Crédito e do Fórum de Líderes Empresariais.

É também colunista com artigos publicados nos portais Exame.comCatho OnlineClick Carreira e Café Brasil.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Mentor você conhece de olhos fechados!


por Sidnei Oliveira*


Sua trajetória é certamente cheia de momentos bons e ruins, durante os quais você vive situações diversas e conhece pessoas dos mais variados tipos. Esta é a essência de nossa vida: caminhar pelos seus ciclos em um fluxo constante de momentos, fazendo escolhas e colecionando experiências.

Algo que muitas vezes passa despercebido são aquelas pessoas que cruzam nossa trajetória com o objetivo de “tocar-nos” e transformar, completamente, o caminho de decisões que inicialmente havíamos considerado absoluto e correto.

Quase sempre demoramos para aceitar a presença provocativa e os “toques” afiados dessas pessoas, mas, depois de um tempo, aprendemos a respeitá-los e a esperar essa interferência em nossas vidas, pois consideramos essas pessoas como nossas principais referências. Isso acontece quando elegemos nossos MENTORES.

Essa relação é pautada por um profundo relacionamento. São conselhos, propostas do melhor caminho a seguir, a melhor trajetória. O Mentor não manda, sugere. Ele orienta, guia, mostra o caminho e as opções possíveis, deixando o mentorado fazer a escolha que julgar ser a melhor opção. Entretanto, esse não é o único processo que está envolvido na relação de Mentoria.

Apesar de termos um papel fundamental na eleição de nossos mentores, cabe a ele – O MENTOR – a decisão final de considerar o nosso potencial e apostar em nossa trajetória. O mentor tem a perícia de descobrir talentos, para que este seja seu aprendiz e com ele cuidar com extrema profundidade dos crescimentos pessoal e profissional.

Ter um mentor é um privilégio, pois é resultado de uma excelente conquista pessoal. Agora, ter vários mentores é uma enorme responsabilidade, pois exige que você também considere a missão de transformar-se em mentor algum dia.

Feche os olhos e pense em uma pessoa que de alguma forma tocou sua vida e fez você mudar de direção.

Achou um? Achou vários? Que ótimo! Contudo, deixo uma pergunta:


Será que algum dia, ao fechar os olhos, alguém lembrará de você? 



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* Consultor, Autor e Palestrante, expert em Conflitos de Gerações, Geração Y e Z, desenvolvimento de Jovens Talentos e Redes Sociais, tendo desenvolvido soluções em programas educacionais e comportamentais para mais de 35 mil profissionais em empresas como Vale do Rio DocePetrobrasGerdau,Santander, TAM, Unimed entre outras.

Formado em Marketing e Administração de Empresas, autor de vários livros sobre Liderança e Administração. É  sócio-fundador da Kantu Educação Executiva, Vice-presidente do Instituto Atlantis de preservação ambiental  e membro do conselho de administração da Creditem Cartões de Crédito e do Fórum de Líderes Empresariais.

É também colunista com artigos publicados nos portais Exame.comCatho OnlineClick Carreira e Café Brasil.


http://www.sidneioliveira.com.br/samba/

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Um modelo ultrapassado



por Hamilton Coimbra Carvalho*


Em diagnóstico publicado em 2012, o governo britânico constatou que seu serviço público é focado em meios e não em resultados e que sua cultura tende a ser burocrática, hierárquica e resistente à mudança. Na administração pública, prosseguia o relatório, há poucos incentivos para que os servidores busquem melhorias e inovações e aqueles que o fazem colocam sua carreira em risco. Assim, o caminho natural para os servidores é a acomodação ao status quo.

Em contatos esporádicos com funcionários de governos de outros países nos últimos anos percebo um diagnóstico similar: a burocracia que orienta o funcionamento dos governos asfixia a iniciativa, a inovação, a motivação, e por consequência, o desenvolvimento do capital humano nela empregado. O resultado disso é que a geração de valor para a sociedade tende a ficar, em diversos graus (dependendo do país e do órgão), aquém do seu potencial. Exceções existem e tipicamente estão inseridas em raras culturas que conseguem combinar a eficiência com o igualitarismo (países nórdicos vêm à cabeça - são países com alta qualidade de vida e que tem um alto escore na dimensão cultural que Geert Hofstede chama de "feminilidade" - basicamente, preocupação social com os outros). Voltando ao assunto, a reflexão que venho fazendo nos últimos anos me ajuda a fazer a seguinte proposição: 

O sistema burocrático tradicional, de inspiração weberiana e focada em cargos, linhas de comando e estruturas hierárquicas (no conceito tradicional, não importa quem são as pessoas que ocupem os cargos), é, por si só, prejudicial ao alcance pleno dos objetivos dos órgãos governamentais. 

Um contra-argumento importante que precisa ser considerado em face dessa proposição é o de que talvez esse sistema seja o menos imperfeito de todos os sistemas possíveis. Mas não vou tratar dele hoje.

Outra proposição que eu faço é a seguinte:

No Brasil (e em países latinos que tenham um perfil cultural similar) o sistema burocrático tende a ser mais disfuncional. 

Que perfil cultural é esse? Basicamente duas das dimensões de Hofstede vêm ao caso: intolerância à incerteza e distância do poder. Quando a primeira é baixa, a tendência é a produção em excesso de normas: como não se consegue conviver com a incerteza e a ambiguidade, tudo - absolutamente tudo - precisa ser regulado por normas estatais (exemplos banais: obrigar comerciantes a exibir o código de defesa do consumidor; a lei aprovada esta semana na cidade de São Paulo prevendo multa para proprietários de veículos que deixam o som no último volume). Com isso temos avalanches de normas que, muitas vezes, desaguam no descrédito e no não-cumprimento – gerando, por sua vez, a necessidade de novas normas. No caso da dimensão cultural "distância do poder" com alto escore (como no Brasil), relações hierárquicas são muito valorizadas e não podem ser quebradas: "manda quem pode, obedece quem tem juízo". 

Como consequência de um sistema de organização do governo (burocracia weberiana) que tende a levar a arquiteturas e culturas organizacionais rígidas, com efeitos negativos potencializados pela expansão irrefreada de normas (inclusive intraorganizacionais) e por relações de poder autoritárias, não é surpresa que tenhamos organizações públicas que: (1) geram baixo valor ao cidadão (exemplos gritantes: sistemas públicos de saúde e educação no Brasil), (2) tem fortíssimo "sistema imunológico" contra a mudança e a inovação e que (3) sejam fábricas de desmotivação em série. 

Além disso, a realidade com que qualquer organização se depara, interna e externamente, é uma realidade multifacetada, que exige do gestor uma preparação para superar a natural tendência humana a buscar e aceitar soluções fáceis e prontas (frequentemente ruins). Toda organização lida com diversos paradoxos. Deixando de lado a tentação de discorrer sobre alguns deles, ressalto que o enfrentamento desses paradoxos requer a superação de tendências individuais automáticas e incrustadas (como o dogmatismo). Esse é um perfil que se exige cada vez mais dos gestores e líderes: a aceitação e a gestão de situações ambíguas, que carregam frequentemente pontos de vista contraditórios. Enfrentar os paradoxos organizacionais envolve ainda o desenvolvimento de determinadas competências organizacionais, como a tolerância ao risco (há caminhos conhecidos para isso, como os comitês de risco para o desenvolvimento de inovações). Mas tanto as competências individuais quanto as organizacionais desejáveis tendem a ser sufocadas em uma cultura como a brasileira, com baixíssima tolerância à ambiguidade e relações de poder muito assimétricas. 

Eu não tenho solução pronta para superar esses problemas (e desconfio de quem proclame ter - estamos lidando tipicamente com um problema hipercomplexo - um "wicked problem", para usar um termo da moda). Eu acho que as soluções terão de ser construídas em conjunto com os profissionais das organizações públicas, a partir de determinadas premissas, e testadas sob uma abordagem de gerenciamento por descobertas (conceito de Gary Klein): introduzidas aos poucos, em um processo de contínua experimentação e aprendizagem, sem saber exatamente aonde se vai chegar, mas sabendo exatamente qual a direção (parece contraditório?).  

Dando a minha contribuição, acredito que o caminho é a flexibilização do modelo burocrático, buscando-se arquitetura organizacionais focadas na busca de resultados claros e organizadas em torno do eixo propósito-princípios-pessoas. Há limites claros, como os princípios do direito administrativo, mas eu acredito que é possível a existência de modelos de atuação que possibilitem, dentro desses limites, que os profissionais se dediquem de coração à busca dos objetivos da organização a que pertencem.  

Um dos requisitos essenciais dessa busca é a definição de boas métricas de impacto. Como saber, no serviço público, se a missão da organização tem sido cumprida? Frequentemente as métricas inexistem ou são ruins. Métricas de impacto tendem a ser imperfeitas e complexas (como medir a qualidade de um sistema educacional?), mas sua utilização é necessária para superar a armadilha das métricas de produto (focadas em atividades e meios). 

Outro requisito essencial é a superação de modelos mentais ultrapassados, algo que acarreta muito desconforto. Um desses modelos é o que considera os profissionais como “recursos” humanos, pressupondo uma massa homogênea que precisa ser comandada e controlada ao extremo. 

Para finalizar, deixo essa excelente indicação de leitura, que trata das mais modernas tendências de redesenho do trabalho, propondo alguns caminhos interessantes para qualquer organização, pública ou privada. Recomendo a todos.

http://cdn.dupress.com/wp-content/uploads/2013/06/DUP345_Workplace-Redesign_vFINAL-6.3.pdf

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* Hamilton Coimbra Carvalho, Mestre em Administração pela USP e Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

3 notas sobre o cotidiano das organizações




Eu não me lembro o que você fez há 10 meses: vieses e avaliação de desempenho

Um livro que indiquei em outro post (Decisive: How To Make Better Choices in Life and Work) apresenta soluções muito práticas para superar diversos vieses que atingem o cotidiano das organizações, frequentemente com consequências sérias.

Um outro livro que trata do mesmo tema (e que compila como poucos os vieses identificados por décadas de pesquisa na economia comportamental e na psicologia social), também com enfoque prático, é o livro dos professores de Administração Max Bazerman (Univ. Harvard) e Don Moore (Univ. Carnegie Mellon). Para quem tem interesse no tema, é leitura imprescindível: Judgment in Managerial Decision Making (2009). É utilizado no curso que o Bazerman dá em Harvard.

O livro de Bazerman e Moore trata, por exemplo, de um viés que tem consequências na avaliação de desempenho, realizado anualmente nas organizações. Como esse viés se manifesta? Com base em sua memória, gestores avaliam o desempenho de funcionários de forma naturalmente enviesada: exemplos mais vívidos de comportamentos dos funcionários (sejam positivos ou negativos) são mais facilmente lembrados e vão dar a impressão de que são muito mais numerosos do que os comportamentos comuns do dia-a-dia, que não são gravados na memória do gestor da mesma forma. Assim, os comportamentos mais facilmente recuperáveis da memória e que tendem a não ser representativos do desempenho do funcionário terão um peso claramente desproporcional em avaliações de desempenho. A proximidade temporal dos comportamentos também tem uma influência comprovadamente desproporcional: as evidências mostram que os gestores dão um peso muito maior aos eventos ocorridos nos últimos 3 meses do que nos 9 meses anteriores. Destaco: mesmo assim, a maioria esmagadora das empresas faz apenas avaliações anuais. Esse é mais um caso de gap entre o que a ciência sabe e o que as organizações aplicam.


“Muitos profissionais usam seu tempo ineficientemente porque a cultura organizacional focada em horas trabalhadas não os força a pensar rigorosamente sobre o que é realmente importante”

É o que diz Robert Pozen, de Harvard, nesse texto bem interessante, que vai ao encontro da discussão sobre como medir produtividade dos profissionais. O texto está no blog da Harvard Business Review: http://blogs.hbr.org/hbsfaculty/2012/06/stop-working-all-those-hours.html

A discussão sobre mensuração de produtividade e configuração do trabalho tem ocupado consultorias e o mundo acadêmico desde que o Yahoo! resolveu extinguir seu programa de home office. Há 2 semanas a consultoria Deloitte organizou um evento ao vivo para discutir o tema, reunindo diversos especialistas. Em resumo, a Deloitte concluiu que as organizações devem estar abertas para formas flexíveis de configuração de trabalho que atendam os interesses de todas as partes envolvidas, inclusive, evidentemente, delas mesmas. Um dos pontos que eu destaco das conclusões da consultoria é a necessidade de os gestores definirem claramente o que esperam de suas equipes em termos de geração de valor.


Acelerando a melhoria de desempenho no trabalho: Novas formas de organização do trabalho

A mesma Deloitte lançou também um trabalho fantástico, que propõe formas de reconfiguração do trabalho que propiciem inovação, agregação de valor e motivação aos profissionais, utilizando conceitos como o design thinking e baseando-se na necessidade de as organizações superarem o conceito de “silos”. Vale muito a pena ler:

http://cdn.dupress.com/wp-content/uploads/2013/06/DUP345_Workplace-Redesign_vFINAL-6.3.pdf

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* Hamilton Coimbra Carvalho, Mestre em Administração pela USP e Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Motivação e filosofia de resultados



por Hamilton Coimbra Carvalho*


Estou convicto que a sociedade vai exigir cada vez mais valor do serviço público. Valor, no caso, são resultados palpáveis, decorrentes de um trabalho de qualidade. Só que trabalho de qualidade não cai do céu. É necessário haver funcionários verdadeiramente motivados e um processo de inovação contínua. 

Indivíduos verdadeiramente motivados a entregar resultados questionam o hábito e as práticas tradicionais, o que nem sempre é confortável em organizações hierárquicas e tradicionais. A possibilidade de questionamento depende, portanto, da cultura interna da organização na medida em que existam processos e canais para apresentação e tratamento de novas ideias.

Mas ideias diferentes ou que pareçam absurdas nem sempre são fáceis de ser aceitas por causa da natural resistência humana a sair da zona de conforto. Às vezes, conseguir essa proeza equivale quase a realizar uma conversão religiosa. A experiência e a evidência científica mostram que é muito difícil persuadir alguém que já tem opiniões formadas. Por outro lado, o ser humano só é racional na medida em que, entre outros fatores, baseia suas opiniões e crenças na realidade. De que adianta uma opinião cultivada com carinho se ela não é submetida ao duro teste do mundo real? No mundo organizacional, diversos conceitos que compõem o sistema de crenças vigente são baseados meramente em usos e costumes ou em intuição. Há pouco questionamento sobre as bases empíricas desses conceitos. Quer um exemplo? Trabalho. O que é trabalho para você? Porém, antes de discorrer um pouco sobre o conceito de trabalho, uma pausa para falar de novas e excêntricas ideias que deram certo.

Tom Kelley, da prestigiada consultoria de inovação Ideo, conta no livro The Ten Faces of Innovation sobre a introdução da revolucionária técnica de salto em altura por Dick Fosbury, ganhador de medalha de ouro olímpica. É aquela técnica em que o corredor se lança de costas sobre a barra. Inicialmente ridicularizada por seus pares, acabou adotada por virtualmente todos os atletas da modalidade quando sua superioridade foi confirmada. Outro exemplo recente vem do Prêmio Nobel de Química de 2011, Daniel Shechtman, cuja descoberta de um novo padrão de arranjo da matéria em quase-cristais foi objeto inicialmente de escárnio, até que os resultados falassem mais alto do que o sistema de crenças então vigente. Sua entrevista, relatando como sua descoberta foi ridicularizada (disponível no YouTube), é imperdível. Esses dois prosaicos exemplos, entre centenas que podem ser citados, mostram que, por mais que as pessoas se aferrem a seus modelos mentais, é a realidade que vai dizer qual crença ou qual modelo está certo ou errado. 

Esse padrão é muito comum quando se trata de novas ideias: o rechaço inicial dá lugar progressivamente à aceitação e à ampla adoção. Acrescente-se que nós tendemos a valorizar muito mais as nossas próprias idéias (o famoso efeito IKEA), aumentando, assim, a resistência ao que é proposto por terceiros. Nós temos um carinho especial pelas nossas crenças. Visões distintas representam sempre uma potencial ameaça à nossa coerente visão de mundo.

Mas se queremos um serviço público que mostre seu valor à sociedade, precisamos contornar essa força quase irresistível que nos prende ao status quo. Como conseguir isso? Um primeiro passo é a adoção da filosofia de experimentos para testar propostas inovadoras. Nas organizações que adotam essa filosofia, ideias diferentes ganham o direito de serem testadas para comprovar se produzem resultados. A organização precisa também estar preparada para o erro. Tom Kelley propõe o papel do experimentador como um dos mais importantes em uma organização que se pretenda inovadora. 

O questionamento de práticas tradicionais é um passo. Mas sem funcionários motivados, é difícil pensar em inovação e geração de resultados de qualidade.  Como produzir funcionários verdadeiramente comprometidos?

A propósito, você sabe o que é motivação? A motivação dos indivíduos pode ser dividida, grosso modo, em intrínseca e extrínseca. Quando o comportamento é guiado pela expectativa de recebimento de recompensas ou punições, estamos falando de motivação extrínseca. Porém o gerenciamento na base da motivação extrínseca, tão comum nas nossas organizações públicas e privadas, gera apenas o que o estudioso da motivação Frederick Herzberg já chamava, há algumas décadas, de movimento. É o gerenciamento na base do chute no traseiro. Não gera a motivação mais nobre, a chamada motivação intrínseca. Nesta, a ação individual é alimentada por “motores” internos, que representam os valores de cada um. Dentre esses motores, cito uma trinca que tem sido considerada como mais importante em um ambiente de trabalho, de acordo com diversos autores.

Um deles é a autorrealização ou a necessidade de competência: os indivíduos tendem a se motivar se conseguem desenvolver plenamente seu conhecimento e competência na execução de suas atividades. Outro fator é a visualização de um propósito maior para as atividades executadas. As pessoas gostam de sentir que fazem a diferença. A autonomia completa a trinca. 

A autonomia é um poderoso fator de motivação na vida. As pessoas tendem a apresentar maior satisfação pessoal quando podem organizar suas atividades. Não é à toa que a satisfação individual costuma ser maior nos finais de semana. A competência que os indivíduos percebem ter em suas atividades só influencia sua motivação quando acompanhada por um sentimento de autonomia. A liberdade para o indivíduo conduzir suas ações é um dos principais fatores que explicam a motivação na sua execução.

A possibilidade de autonomia na organização do trabalho pessoal tem sido utilizada por grandes empresas como fator de atração de colaboradores de elevada qualificação, pois os funcionários tendem a apresentar maior satisfação no trabalho se têm liberdade para organizar seu tempo. As organizações começam a entender que as pessoas gostam e procuram locais de trabalho onde são tratadas como adultas. O foco passa a ser em resultados e não em controles excessivos que tolhem a autonomia, a criatividade e a energia. Maior autonomia significa que a organização confia na capacidade do funcionário para desempenhar adequada e responsavelmente seu trabalho e para atender as metas que lhe são estabelecidas em contrapartida.
Há uma intersecção impossível entre as altas demandas que são feitas aos funcionários em uma economia movida a conhecimento e a situação de baixo controle que muitas organizações ainda propiciam. Para que a motivação plena esteja presente é preciso conferir também aos funcionários alto controle sobre suas vidas.  

Autonomia de fato implica um questionamento sobre o paradigma atual de trabalho. O trabalho tradicionalmente tem sido definido como uma soma de tempo gasto na organização e dos resultados associados. Mas quanto do tempo de um funcionário é efetivamente gasto em trabalho produtivo? A percepção de que muito desse tempo é perdido em reuniões pouco efetivas e interrupções diversas é generalizada, de acordo com pesquisas com funcionários de empresas privadas.

Por que não cobrar apenas resultados e descartar o controle de tempo, por exemplo? Por que não tornar reuniões opcionais? A ideia é chocante? Saiba que na Best Buy, uma das 100 maiores empresas americanas, foi implantada há alguns anos um projeto piloto que, dado seu sucesso, se espalhou atualmente para 80% da força de trabalho da administração da empresa e que vem se espalhando para outras empresas daquele país e mesmo para órgãos governamentais. Por que? Porque funciona! A premissa básica desse projeto, que ganhou o nome de ROWE (Results Only Work Environment) é a seguinte: trabalhe quando quiser, como quiser, onde quiser, desde que você entregue resultados. Você só precisa estar presente no ambiente tradicional de trabalho quando isso for realmente necessário. Afinal, trabalho é o conjunto das atividades que você realiza e não o local físico para onde você vai todos os dias úteis. Isso é especialmente verdade no mundo atual, em que a mobilidade e o acesso remoto a sistemas e pessoas é extremamente facilitado. Em um mundo moderno em que o conhecimento e a inovação são valorizados, cobrar horário, por exemplo, é coisa do século XIX. Não sou eu quem diz isso, mas o presidente da festejada consultoria Great Places to Work.

É difícil adotar esse tipo de filosofia? É. Dá trabalho questionar os próprios modelos mentais e aceitar que a visão clássica sobre trabalho pode não ser a mais adequada. É muito desconfortável aceitar isso. Nós gostamos daquela sensação de conforto, produzida pelo nosso sistema pessoal de crenças, de que sabemos tudo sobre o mundo que nos cerca. Questionar esse sistema vai contra a natureza humana. Não é verdade?

Porém os resultados da filosofia ROWE mostram que, contrário ao senso comum, quando as expectativas e as metas de resultados são adequadamente calibradas, o trabalho em equipe e a comunicação são favorecidos e os resultados reais do trabalho melhoram sensivelmente. É uma questão empírica. De nada adianta eu defender a minha opinião sobre organização do trabalho sem que seus méritos sejam provados pela realidade. Caso contrário, trata-se de mera crença ou de um modelo mental ultrapassado. Uma organização inovadora, não custa repetir, é aquela disposta a dar chances de novas ideias serem testadas, mesmo que pareçam exóticas em um primeiro momento.

Sabe o que acontece quando o trabalho passa a ser definido apenas com base nos resultados? Quem não produz adequadamente aparece. Quem se esconde no paradigma atual, cumprindo a jornada determinada, mas pouco produzindo de relevante, fica “nu” nesse sistema. Por outro lado, os relatos de quem trabalha sob a filosofia ROWE mostram que se trabalha mais (ao contrário do que se imagina), mas com muito mais satisfação e com um grande incentivo para aumentar a produtividade e para eliminar procedimentos inúteis, que não agregam valor.

Pode parecer coisa de americano apenas, mas eu conheço sistemas de trabalho em fiscos brasileiros que têm um grau de autonomia elevado, aproximando-se da filosofia ROWE. Os relatos dos que trabalham sob esses sistemas confirmam os resultados obtidos na Best Buy. Eu mesmo já trabalhei em um sistema assim e posso garantir: não há nada no paradigma tradicional, hierárquico e altamente desmotivador, que faça com que os funcionários rendam tanto e fiquem, ao mesmo tempo, tão satisfeitos com seu trabalho. 

A propósito, na Philips do Brasil, conforme declaração de seu presidente na Época Negócios de março de 2011, 60% da força de trabalho tem ampla mobilidade. Segundo ele, em uma cidade como São Paulo, com graves problemas de mobilidade, é melhor que o funcionário nem vá à empresa, pois trabalhando à distância ele é mais produtivo.  

Para finalizar, deixo a pergunta: o que quer a sociedade dos servidores públicos? Funcionários que trabalham desmotivados e que apenas seguem procedimentos muitas vezes ultrapassados? Ou funcionários que trabalham de forma engajada e apresentam resultados reais, que melhoram a vida dos cidadãos? 

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* Hamilton Coimbra Carvalho, Mestre em Administração pela USP e Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo.